“Black Adam” é totalmente medíocre em todos os sentidos da palavra. Morno. Brando. Lerdo. Superficial. Maçante. Tedioso. Anêmico. Essa não é uma terminologia que você deseja associar ao grande e caro filme de super-heróis alardeado pelo mega

marketing que acompanha o lançamento mundial *. Mas são termos que me vieram à mente (e à paciência, durante toda a projeção) quando deixei a sala depois de 124 minutos.

A estreia do ator The Rock como antisuperherói na galeria da DC (Detective Comics) é tudo isso e muito mais, um trabalho sem vida que oferece dezenas de cenas de luta de grandes proporções, apelativas, ruidosas em excesso, enfeitadas de cores, explosões e uma tonelada de espalhafatosos efeitos via computador, aqui um CGI – tudo a um custo revelado de U$ 200 milhões. Mas o roteirista prá la de desleixado não oferece quase nenhuma motivação para que nos preocupemos sobre quem ganha ou perde, ou que diferença isso fará ao final. Muito displicente e deslumbrado, o diretor catalão Jaume Collet-Serra.

A trama do filme é tão previsível quanto possível, e os espectadores provavelmente poderão traçar exatamente o que vai acontecer após os primeiros cinco minutos. Os personagens – a maioria deles é apresentada neste filme, incluindo os heróis da lista B da Sociedade da Justiça (não confundir com a Liga da Justiça) – são superficiais e sem inspiração, confiando inteiramente em clichês e superpoderes para prender qualquer desvio de nossa desatenção. É uma escolha narrativa estranha, apresentar simultaneamente Dr. Fate, Hawkman, Cyclone e Atom Smasher em um filme que não está diretamente relacionado a nenhum deles. São muitos personagens novos de uma só vez para realmente dar a qualquer deles motivações substanciais de personagens, e esses quatro potencialmente interessantes acabam comprados pelo público sem qualquer entusiasmo.

Os personagens não super-heróis – a revolucionária Ísis e seu filho Amon – deveriam ser as âncoras emocionais do filme, os bons cidadãos de Kahndaq que só querem se libertar do jugo da vilã Intragang. O irmão de Isis, Mohammed, serve como um respiro cômico – mesmo estereotipado. Mas esses três são substitutos genéricos para pessoas reais. Não há profundidade em nenhum deles. O espectador acaba não se importando se eles vivem ou morrem.

“Adão Negro” é todo espetáculo e nenhuma substância. É filme de super-herói sem espinha dorsal. Felizmente a coisa toda dura apenas 2 horas e 4 minutos, embora pareça um filme muito mais longo graças à falta de qualquer coisa que se assemelhe remotamente a uma tensão dramática. É outro filme sobre um supervilão cosmicamente poderoso que ameaça destruir o mundo que finalmente parou no momento em que os créditos desfilam no fim ? Que legal ! Quanta excitação ! Não há suspense quando as apostas são altas demais para se tornarem realidade. Quando você torna o conflito central tão impessoal e irreal, a apatia se instala. Apatia e tédio. E na sexta ou sétima ou oitava grande cena de luta, o tédio é então quase insuportável. Mortal mesmo.

"Adão Negro": roteiro pra lá de desleixado que não oferece quase nenhuma motivação para que nos preocupemos sobre quem ganha ou perde
"Adão Negro": roteiro pra lá de desleixado que não oferece quase nenhuma motivação para que nos preocupemos sobre quem ganha ou perde | Foto: Divulgação

Que sejam dados aos fancine (o correspondente cinéfilo dos fanzine dos quadrinhos) personagens com os quais eles se importem de fato; os coloquem em perigo real. Dêem aos super-heróis escolhas difíceis. É assim que você cria tensão e investimento no público. (E se você conseguir ficar acordado até o final de “Black Adam”, há uma cena rápida lá pela metade dos créditos, levemente interessante, que promete mais de The Rock em companhia de um velho super-herói da DC. )

*Nada contra, a luta insana do cinema em geral e de Hollywood em particular, tentando se adequar à sobrevivência e extrair lucros menos minguados nesta pós- pandemia. Mas a beatificação indiscriminada de produtos que merecem no máximo o purgatório está ficando intolerável.

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