Acúmulos, resíduos, desperdícios e fluxos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de julho de 2002
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Em ''O Globo'' do último dia 19, saiu uma foto de capa do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, vestido com uma camiseta da Seleção, onde um texto escrito propagandeava os milhões de dólares emprestados do FMI a serem pago em seis anos. Detalhe da camiseta: o logotipo da empresa financiadora que fechou acordo.
Temos crédito, quer dizer, o Brasil tem solo abundante e mão-de-obra especializada e barata para continuar garantindo seus empréstimos. Não é à toa o desejo do governo americano leia-se multis de concretizar logo a criação da ALCA, oficializando nossa dependência.
O poeta Roberto Piva estudioso de culturas e religiões diz que a religião da civilização judaico-cristã é monoteísta e tem um Deus ''castigador'' porque seu povo dependia do humor da natureza para fazer chover no deserto em que vivia. E que para os povos originários do Brasil e da África essa idéia de um Deus transcendente não fazia sentido. Para os povos da floresta, a natureza sempre foi generosa. Daí nomear uma árvore, um rio ou uma montanha como algo sagrado, portador de espírito.
Uma civilização dependente de acumulação, outra não. Já que o ano inteiro podia-se pescar, caçar, recolher frutas e plantas para a sua sobrevivência. Uma ligada à esperança que viria do céu, ao futuro. As outras ligadas à terra, ao presente.
No choque entre as culturas, algumas frases, por menos sensíveis, ficam guardadas na memória, como daquele diálogo entre um coronel britânico e um apache, em terras americanas: ''Mãe terra, mãe terra, você já disse 20 vezes que a terra é a mãe do seu povo, mas vamos acabar logo com isso: Quanto é que você quer por elas?''.
É inegável que o Planeta corre riscos reais de sobrevivência, devido aos danos ao meio ambiente, causado por devastações e poluição. E é inegável, também, que o Brasil ainda possui grandes reservas naturais e capacidade produtiva que despertam interesses internacionais. Mas isto é sagrado, ou deveria ser. Não temos porque nos orgulhar de penhorar, vender, entregar nossos tesouros ao preço que nos querem pagar, simplesmente.
É preciso resgatar certos princípios e valores da cultura nativa, nossa matriz uterina, como a solidariedade com todos os seres vivos. Um xamã o ''pajé'', o ''padre'', o ''feiticeiro'', o ''médico'' da tribo para fazer seu ritual de cura, utiliza todas as possibilidades perceptivas ao alcance das sensações do corpo: ele canta, dança, desenha, faz infusões, diz palavras mágicas, toca instrumentos, etc., lembrando uma ''performance'', como nós dizemos. Tem uma ''atitude'', diríamos, artística.
Se conseguirmos conectar esse tipo de ação a um processo artístico como, de fato, vem acontecendo há décadas com trabalhos que levem em consideração o meio e o contexto no qual estão inseridos, poderemos pensar não só a questão do acúmulo, da dívida externa e da dependência econômica como matéria de especialistas, mas como algo a que a arte não deve dar as costas, mas reagir de frente. Exemplos dessa atitude são os trabalhos de Joseph Beuys com seus conceitos sobre energia e economia ou Artur Barrio, que propõe a dissolução do objeto artístico.
O importante é que podemos pensar questões como a do acúmulo, resíduo e desperdício, não como algo inexorável, mas como parte de um fluxo onde tudo planeta, economia, arte seja parte de um mesmo movimento.
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