Um belo dia, um certo açougueiro de uma certa cidade do sul do Brasil saiu pelas ruas vendendo linguiças que fabricava em seu humilde açougue. A linguiça possuia um sabor peculiar, agradando a maioria dos fregueses. Tudo seria um fato sem nenhuma importância se, depois de algum tempo, a polícia não estabelecesse uma conexão entre sete pessoas misteriosamente desaparecidas e a tal linguuiça de sabor peculiar.
O nome do sujeito era José Ramos. Seu extremo prazer consistia em matar pessoas e depois ouvir música lírira. Sua mania era assassinar homens e mulheres com uma machadada no meio da testa, depois degolava-os.
Para eliminar as provas dos crimes resolveu dessossar os corpos, queimar os ossos e entregar a carne à seu amigo e cumplice, o açougueiro, para que fizesse linguiça. Detalhe: a linguiça era vendida a um preço menor na casa do prefeito, do delegado, do padre e outras personalidades da cidade. Sem provas, sem crime.
Esta história não é ficção. Aconteceu na cidade de Porto Alegre, entre os anos de 1863 e 1864, há exatamente 132 anos. Nenhum jornal brasileiro noticiou o fato. Apenas um jornal francês e um uruguaio veicularam uma pequena nota. Charles Darwin soube do violento caso, não se sabe como, e comentou-o em seu caderno de anotações: ‘‘Informa-se que no extremo meridional do Brasil, na pequena cidade de Porto Alegre, um grupo de perversos matou várias pessoas, usando sua carne para manufaturar linguiça, que não só comeram como também induziram os habitantes e comê-la. Uma vez que nesta região do Brasil há uma enorme disponibilidade de carne bovina, a explicação para o canibalismo não deve ser a fome. O temor de Lyell de que a humanidade perca a sua posição nobre e volte à bestialidade é certamente infundada, mas as regressões ocasionais à bestialidade sempre ocorrerão. Há um chacal adormecido em cada homem.’’
Memória apagadaPorto Alegre, diante do fato de ter praticado canibalismo, apagou o caso da história. O constrangimento instaurou o silêncio. Os acusados foram condenados por assassinato, a menção da fabricação de linguiça de carne humana foi omitida até nos processos judiciários. José Ramos foi condenado à forca em praça pública, mas o cadafalso não abriu. Depois de várias tentativas infrutíferas, o carrasco foi afastado do cargo e Ramos pegou prisão perpétua.
Este episódio violento, digno dos tempos atuais, foi resgatado pelo historiador gaúcho Décio Freitas no livro ‘‘O Maior Crime da Terra’’, lançado agora pela Editora Sulina. A grande dificuldade de Décio Freitas foi encontrar documentos em sua pesquisa para reconstituir os assassinatos.
Até mesmo os processos judiciais desapareceram do Arquivo Nacional. Para o historiador, o que horrorizou a cidade foi o canibalismo, fazendo tudo para retirar isso da memóoria. ‘‘Ramos mandou fabricar e vender linguiça com carne de suas vítimas, e assim fez a cidade comer carne humana, violando um dos interditos observados por todos os animais - não comer outros da mesma espécie. A cidade, em consequência, empenhou-se em negar o estigma do canibalismo, e são muitos os fatos a indicarem isso.’’
‘‘O Maior Crime da Terra’’, além de mostrar como certos fatos ‘‘indesejáveis’’ podem ser sumariamente apagados da História, mostra que a violência do homem contra o homem não é uma característica dos tempos atuais, quando se mata como se masca chiclete. No século passado, e em toda a história da humanidade, o homem é bestialmente sanguinário. Um animal eficiente com uma arma na mão, já que suas unhas e dentes estão gastos.
q O Maior Crime da Terra - O Açougue Humano da Rua do Arvoredo -, de Décio Freitas, editora Sulina, 140 páginas, R$ 18,00/Livraria Bom Livro.

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