Acossado de Godard
Lélio Sotto Maior Junior
Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo em cena de ‘‘Acossado’’Neste Mundo caótico, de formas em turbilhão, de forças em desperdício, existe uma fundamental dificuldade de invenção. Daí a ebulição de gestos, mímicas, pantomimas, de movimentos (fisionômicos, corporais, coreográficos) de Michel e Patricia, tentativas (elas também vulneráveis) de superar este estado de coisas. Daí também as entrevistas que os personagens administram um ao outro, análogas entretiens que o crítico Godard realiza com seus cineastas do peito (Rosselini, Nicholas Ray, Carls Dreyer) no ‘‘Cahiers du Cinéma’’.
Godard é como Hitchcock, o cineasta do corpo. Contudo, quando a câmera capta o estar ‘‘físico’’, despojado, desdramatizado de um corpo, ‘‘algo se passa’’ (de fenomênico, de indefinível, de inconceituável). Por esses ‘‘algo se passa’’ godardianos damos de lambuja todo o cinema da Europa e América.
‘‘Acossado’’ (A Bout de Souffle - França - 1959) é a dificuldade de diálogo entre duas culturas, entre dois seres, entre a dispersão e a construção, entre o nada e a invenção. Entre o instante e a duração, entre o caos e a unidade, entre o mortal e o vital.

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