Acordes finais
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de dezembro de 1996
Zeca Corrêa Leite<br>Sucursal de Curitiba 
Das vozes líricas brasileiras a mais famosa da atualidade é a da soprano Celine Imbert. A cantora que ultimamente mantém carreira no Brasil e exterior apresenta-se neste domingo no Guairão, em Curitiba, às 10 horas, no último concerto da Orquestra Sinfônica do Paraná na temporada de 1996. Ela fará o solo de Cinco Canções sobre Poemas de Mathilde Wesendonk, na primeira parte do programa. Fechando a sessão o violista Jairo Chaves, spalla de violas da Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina, toca Haroldo na Itália op. 16, de Berlioz.
Com a apresentação de domingo a soprano interrompe uma ausência de Curitiba que já durava três anos. A última vez que cantou na cidade foi numa participação especial no balé As Canções de Wesendonk, produzido para o Ballet Teatro Guaíra. Como disse o regente Osvaldo Colarusso sobre este novo trabalho: Agora Celine estará mais livre.
Paixões contrariadas As peças escolhidas para esta apresentação trazem histórias densas, emotivas. Cinco Canções sobre Poemas de Mathilde Wesendonk foram escritas por Richard Wagner quando ele se encontrava absorvido na criação de Os Nibelungos, megaprojeto que levou 25 anos para ser concluído.
O compositor alemão estava em Zurique na casa de seu benfeitor, e entre uma nota e outra acabou por se apaixonar pela esposa do amigo. Foi um amor avassalador e platônico que deixou como herança além de sua história, a ópera Tristão e Isolda, que fala dos amores impossíveis, e estas cinco canções: O Anjo, Silencie-se, Na Estufa, Dores e Sonhos.
Viola em solo Hector Berlioz compôs Haroldo na Itália op. 16 inspirado num romance de Lord Byron. A obra literária detém-se na trajetória de um jovem (e sofredor) poeta que deixa escapar do peito as angústias que o assolam. Na busca pela razão de viver o garoto viaja para a Itália, em vão. Aos poucos o que lhe resta de vida vai sendo consumido.
A peça foi dedicada a Paganini, que agradeceu a homenagem mas não se dignou a tocá-la. Poderia tê-lo feito, mas o virtuose não encontrou na música aquilo que desejava - espaço para mostrar sua genialidade. De qualquer modo ficou grato a Berlioz e recompensou-o com uma gorda quantia em dinheiro.
A viola ocupa o lugar de Haroldo na canção. Momentos mais iluminados, outros feitos de lamentos passam pelas cordas do instrumento, como se fosse a voz do jovem queixoso. Para executar a tarefa estará no palco o violista Jairo Chaves.
O músico paraense há um ano mora em Londrina. Membro da Osuel teve seu talento reconhecido pelo maestro Osvaldo Colarusso, que o chamou a Curitiba. É a primeira vez que Chaves se apresenta com a Osinpa. Já nos primeiros ensaios ele percebeu que a parceria daria resultados, mesmo com o caráter virtuosístico da peça para a orquestra.
É uma peça que exige muito, disse Jairo para a Folha2. Sua expectativa é que a platéia goste do que vai ser apresentado. Há toda uma história que comove. Além do aspecto do enredo, esta é uma oportunidade quase rara de se ouvir viola como instrumento solo. Só agora os compositores estão se preocupando em escrever para viola, o que não aconteceu no passado.
É muito escassa a literatura na música barroca, romântica. Berlioz foi um dos raros autores dessa fase, comenta. Mesmo o violino, cuja origem vem da viola, tem um número de obras muitas vezes superior.
Detentor de prêmios nacionais e com aperfeiçoamento nos Estados Unidos, Jairo Chaves integrou a Orquestra Jovem de Minas Gerais e a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, entre outras. Deu recital solo na Whitmore Recital Hall, em Columbia, e participou da Missouri Sinfonia Strings em concertos sob regência de Edward Dolbashian.
Solista da Orquestra Sinfônica do Paraná sente que deu um salto na carreira ao estar dividindo o programa com uma artista do porte de Celine Imbert. Famosíssima, diz admirado. Humildade do moço que lembra de um concerto ocorrido a uns dez anos atrás, quando ele era ainda mero estudante no Festival de Música de Campos do Jordão.
Estava nas últimas cadeiras da Orquestra do Festival, e ainda assim vivendo o momento solene de acompanhar a grande Celine. Tinha 17 anos, muito estudo pela frente e uma admiração confessa pela cantora. Surpreende-se que hoje estejam juntos no palco do Teatro Guaíra, e mais ainda porque coube a ele encerrar o programa. Emoção e honra misturam-se no peito do intérprete de Haroldo, o poeta.
q Concertos Matinais - com a Orquestra Sinfônica do Paraná no Guairão (última apresentação de 1996). No programa: ópera O Navio Fantasma (abertura), de Richard Wagner; Cinco Canções sobre Poemas de Mathilde Wesendonk, de Richard Wagner, com solo da soprano Celine Imbert; Haroldo na Itália op. 16, de Hector Berlioz, com solo do violista Jairo Chaves. Regência: maestro Osvaldo Colarusso. Domingo, às 10 horas, no Guairão. Ingressos: R$ 5,00.


