A oficina de acordeon que aconteceu no 22º Festival de Música de Londrina desvendou um número expressivo de acordeonistas na cidade, o que comprova a vocação musical de Londrina. Gabriel Levy, de São Paulo, que ministrou a oficina, num levantamento informal e preliminar, contabilizou mais de 30 músicos que vivem profissionalmente do instrumento ou que se dedicam ao estudo regular.
Além da origem rural da cidade, os programas de auditório, tanto em rádio como tevê, aliado aos modismos, impulsionaram a difusão do acordeon. Outro fator histórico local eram os bordéis que fizeram Londrina ficar conhecida de norte a sul do Brasil. A zona do meretrício empregava muito sanfoneiro.
Outro fato histórico de Londrina aconteceu no final dos anos 50. A Biblioteca Pública incentivou a criação da Orquestra Mirim da Biblioteca Pública Municipal. Na época, a diretora da Biblioteca Maria Gonzáles copiava a mão todas as partituras para não aumentar as despesas da instituição. A Orquestra Mirim era formada por 48 crianças com idades entre 6 e 12 anos e fazia audições beneficentes muito prestigiadas pela comunidade.
Hoje, há um novo boom do acordeon. No rastro do sucesso do grupo Falamansa, que se tornou conhecido pelo forró universitário, muitos jovens procuram desvendar os segredos do instrumento. O Conservatório Musical de Londrina, nas comemorações aos 50 anos, está montando um sexteto de acordeonistas.
Gabriel Levy promoveu na Secretaria de Cultura de Londrina um encontro entre alguns dos acordeonistas, abrangendo várias gerações, o que acabou rendendo uma jam session de acordeon. Desse encontro germinou um projeto para a criação de um circuito para apresentações, ativar o mercado ou fazer um CD de coletânea. O professor visitou as casas de shows Som de Cristal e Albatroz para conhecer de perto o trabalho de alguns sanfoneiros.
Entusiasmado com a diversidade de estilos e a qualidade dos músicos, Gabriel Levy pretende fazer visitas regulares à cidade e se reunir com os instrumentistas. No encontro promovido por Gabriel Levy compareceu o professor Pedro Romanini, 67 anos, que há 38 anos leciona acordeon em Londrina. Ele chegou a ter 60 alunos simultaneamente em 1964. Na época, era o instrumento mais procurado. ''Mas não dá para aprender rápido. O ensino demora até 7 anos'', diz. Várias gerações conheceram os ensinamentos de Pedro Romanini. Para o sanfoneiro Zé do Bode, conhecido nas casas de shows da cidade, até o final dos anos 60 o acordeon reinava. ''Era o auge, todo mundo tocava'', afirma.
O efeito sanfona do modismo chegou aos anos 80 na região. Muita gente desembarcou cheio de esperanças. Nessa leva chegou em Londrina o músico Edinho. De 1985 a 1988, a proliferação de casas noturnas exigia músicos de mão cheia. O mineiro de Alpinópolis Ézio Donizetti de Souza (Edinho), 35 anos, veio e logo se empregou no Balancê, famosa casa de shows da cidade. Passou por outros locais como Chamego, Viola de Ouro e Caracol. Como muitos músicos, Edinho aprendeu sozinho. Teve aula com o vendedor onde comprou seu primeiro acordeon. Depois, em Londrina voltou a estudar o instrumento. ''A gente se sustentava com o acordeon. O instrumento estava apagadão. Agora, ele está em ascenção e toco principalmente em gravações'', diz. Edinho é parceiro num estúdio com Carlos Alberto Fernandes (Carlinhos), também sanfoneiro e que tocou com os cantores Marciano e Barreirito.
A professora de música Denise Mena Barreto Moura de Barros Batista tocou precocemente aos 3 anos de idade seu primeiro acordeon, um instrumento de tamanho menor. Para surpresa dos pais, Denise tocou uma valsa de Johanes Brahms. Logo em seguida, começou a aprender piano. Dos 8 aos 12 anos, Denise se dedicou aos estudos do acordeon. ''As mulheres tocavam acordeon, era uma virtude saber tocar. Só retornei na juventude ao instrumento. Nessa época era vizinha do Borguettinho e ouvia ele e Elton Saldanha tocarem'', recorda a professora. Ela está entusiasmada com a idéia de Gabriel Levy reunir todos os acordeonistas da cidade e pretende se atualizar. Sua especialidade é o repertório regional do Rio Grande do Sul.
Mas a figura mais respeitada no círculo musical dos acordeonista é Juliano De Mari, 65 anos, de família de pioneiros em Londrina. ''Sou de uma família de músicos amadores. Aprendi acordeon por influência de meu pai há mais de 50 anos'', relembra. Em tantos anos de vida musical, Juliano passou pela Rádio Londrina, um celeiro de excelentes músicos, onde as grifes da música brasileira se apresentavam nos programas de auditório. Pelos microfones da Rádio Londrina passaram Orlando Silva, Carlos Galhardo, Ivon Cury, Elza Soares, Pery Ribeiro, entre tantos. Isso nos idos dos anos 50. Juliano também tocou na noite. Depois do surgimento da TV em Londrina, em 1963, ele começou a aparecer na telinha no programa ''Musical da Saudade'', num programa de serestas. Apesar da longa experiência, o aprendizado intuitivo, Juliani De Mari não lê partitura. No entanto, não deixou de se atualizar. Montou um estúdio de gravação, onde comanda uma parafernália eletrônica e se tornou um expert em gravação de CDs e jingles. Ainda viaja com um grupo musical se apresentando na região, juntamente com Vitor Gorni, Azael Lima e a cantora Erica. Mas há oito anos toca apenas teclado.
Quem se interessar em participar do grupo de acordeonistas coordenado pelo professor Gabriel Levy pode entrar em contato com Regina Reis, da Secretaria de Cultura de Londrina, telefone (43) 371-6600.

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