Além de abusar do bom humor em ‘‘Quarta-Feira’’, o autor Eric Nepomuceno soube reservar finais surpreendentes para cada história. A obra, lançada pela Record, tem 26 contos e crônicas bem divertidas. As histórias vão desde aventuras de um carioca que ficou conhecido por acompanhar enterros de pessoas famosas até um inesperado show de músicos anônimos, que contou com a presença de Tom Jobim.
Em ‘‘Quarta-Feira’’ (156 páginas/R$ 23,50), Nepomuceno procurou mostrar fatos que ocorrem no cotidiano, apesar de nenhuma história ser verídica. Ao longo da obra, Nepomuceno foi capaz de dar uma boa dose de humor em situações delicadas para cada um dos personagens, sem deixar a emoção de lado. Outra curiosidade revelada pelo autor é que a maioria dos contos aconteceu exatamente numa quarta-feira. Para ele, uma mera coincidência.
Autor de livros como ‘‘Coisa do Mundo’’, ‘‘A Palavra Nunca’’, ‘‘40 Dólares e Outras Histórias’’, Nepomuceno ganhou notoriedade mesmo antes de vencer, por duas vezes, o prêmio Jabuti de melhor tradução. As obras anteriores do autor tiveram o reconhecimento e foram elogiadas por escritores como Gabriel García Marquez, Juan Rulfo, Eduardo Galeano e Alfredo Bosi. ‘‘Nunca imaginei que pudesse desfrutar tantos contos que terminam tão mal’’, elogiou García Marquez, se referindo ao livro ‘‘A Palavra Nunca’’.
Em ‘‘Quarta-Feira’’, no capítulo ‘‘Só Para Esclarecer’’, o escritor mostra a agonia de um paciente durante uma consulta. O sujeito marca a consulta, paga adiantado e quando é atendido cria uma situação, no mínimo, constrangedora para o médico. ‘‘O que o senhor tem?’’, questiona o doutor. ‘‘Se eu soubesse não estaria aqui’’, responde o paciente.
Outra crônica em que Nepomuceno mostra um fino senso de humor é na que transforma o ex-senador Darci Ribeiro em personagem. O escritor mostra a paixão exagerada de Darci pela Praia de Copacabana. Quando não tinha oportunidade de ir à praia, Darci não se continha e mandava buscar um balde de água da praia de Copacabana para relaxar os pés.
O autor também descreve a amizade e admiração por Tom Jobim em dois contos sobre o maestro. Nepomuceno deixa transparecer que os casos foram verídicos, mas não confirma. A mesma dúvida que Tom Jobim fez questão de deixar quando leu o conto, pouco antes de morrer.
Na primeira história, o escritor fala da cumplicidade dele com Tom. Religiosamente todos os sábados os dois frequentavam um barzinho de Ipanema. No local, trocavam idéias e tomavam umas e outras também entre uma canção e outra. Quando Tom morreu, Nepomuceno não escondeu a tristeza e disse que a partir daquele momento, os sábados não seriam mais os mesmos.
O autor usa também personagens menos famosas. Como o morador de Nilópolis, na Baixada Fluminense, Jaime Sabino. Mas há um bom motivo para que ele vire assunto de um conto. O sujeito tinha a mania de frequentar enterros de pessoas ilustres. Tinha orgulho de dizer que já havia acompanhado os funerais de personalidades como Cazuza, Chacrinha, Clara Nunes, Carlos Drummond de Andrade, entre outros.
Sabino, no entanto, teve uma grande frustração. Não pôde acompanhar o enterro do piloto Ayrton Senna. Dois dias antes, o próprio filho havia falecido num desastre de trem. Mesmo com a tragédia, ele não perdeu o bom humor. O mesmo bom humor que pode ser encarado como referencial para o livro. E é esta desenvoltura que faz com que o autor consiga cativar o leitor.

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