Se de alguma maneira pudéssemos definir Anthony Rudolph Oaxaca Quinn, seria como alguém temperamental e étnico. ‘‘Sou Anthony Quinn: filho, irmão, colhedor de frutas, estudante, amante, ator, marido, padre, escultor, pintor, um bastardo arrogante. Sou mexicano, irlandês, índio, americano, italiano, grego, espanhol, chinês, esquimó e muçulmano. Sou todas essas coisas e muitas mais. E também muitas menos. Mas acima de tudo sou um artista. Este foi meu princípio e este será meu fim’’, escreveu em sua autobiografia ‘‘One Man Tango’’ - apelido dado a ele por Orson Welles.
Quinn foi sempre sem medidas, tanto na ficção vivida na tela quanto na vida real. E tanto em uma como em outra foi tudo que se pode ser na vida: bom e mau, pobre e rico, fanático e libertário, vital e fatalista, apaixonado e terrível. Entre sua prolífica filmografia - ele fez mais de 150 filmes - vale a pena destacar ‘‘La Strada’’, de Fellini, onde interpretou Zampanó, um imenso personagem curtido na vida áspera que consegue redimir-se e humanizar-se por força de fé inquebrantável e do sopro de uma grande mulher, a Gelsomina de Giulietta Masina. Ou o sheik beduíno em ‘‘Lawrence da Arábia’’, obra-prima de David Lean. Ou ainda o esquimó de ‘‘Sangue Sobre a Neve’’, de Nicholas Ray. Ou o mais conhecido de todos, ‘‘Zorba, o Grego’’, de certa forma uma espécie contraditória de alter-ego do ator. Em seus melhores momentos - e não foram poucos -, uma inesperada sensibilidade e uma vulnerabilidade quase infantil fizeram contraponto à truculência e à veemência de um autêntico primitivo.
Anthony Quinn morreu sem concretizar um sonho antigo: interpretar Pablo Picasso. Um sonho que embalava até há muito pouco tempo. ‘‘É que cada homem - repetia este mito das mil e uma identidades - necessita uma pequena loucura’’.

mockup