Acima de tudo, sambista!
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de dezembro de 1996
Antônio Mariano Júnior 
Demorou um bocado. Para ser mais exato, foram necessários oito anos para que Paulinho da Viola se sentisse preparado o suficiente para colocar seu 16º disco no mercado. E ele o colocou há pouco mais de duas semanas. E deu o nome de Bebadosamba (BMG). Antes de ser exemplar, o trabalho é simplesmente fantástico. Antes de ser mais um, é o mais importante lançamento fonográfico de 96. Antes de ser um disco de samba, é um disco de Paulinho da Viola. E sendo de quem é só pode ser digno.
É um disco desplugado com arranjos assinados pelo próprio Paulinho e por Cristóvão Bastos. Ao todo, 14 faixas ou exatos 44,49 minutos de duração. Abre com a singela Quando o Samba Chama (Paulinho da Viola) e encerra com Bebadosamba, em que Paulinho faz evocações às suas fontes musicais: Cartola, Ismael Silva, Sinhô, Noel Rosa, Pixinguinha, Ataulfo Alves, Nelson Cavaquinho, entre outros pilares do samba já gravados anteriormente por ele.
Mas é no miolo que Paulinho destila toda sua categoria e elegância. A começar por Ame (dele com Elton Medeiros, que faz participação especial) que tem um discreto mas consistente naipe de metais que conseguem dar o fôlego necessário à letra de simplicidade franciscana. Claro, há a homenagem à Portela que vem em forma de O Ideal É Competir (Candeia e Casquinha), que conta com o coro e toques instrumentais da velha guarda da escola.
Como é de praxe em seus discos, os compositores clássicos não foram esquecidos. E dessa vez entre os homenageados estão Rochinha e Orlando Porto em Novos Rumos, gravada na década de 50 por Silvio Caldas. Mas homenagem pública ele presta mesmo a Aldir Blanc na irônica Memórias Conjugais com as devidas saudações cruz-maltinas.
Num disco cheio de altos é quase impossível apontar essa ou aquela faixa como sendo a melhor. Porém, é bem possível que Paulinho alcance a unanimidade dos ouvintes em Dama de Espadas (dele) , Solução da Vida (dele com Ferreira Gular) e Mar Grande, em que Paulinho consegue alguns de seus melhores momentos. Podem não ser essas as melhores, mas que arrepiam, ah, arrepiam.
Bebadosamba não está acima de qualquer crítica negativa. Não quanto à música porque, nesse ponto, Paulinho é irretocável. Está para surgir alguém topetudo o suficiente para apontar manchas em sua musicalidade. Os senões vão mesmo para algumas das letras assinadas por Paulinho da Viola que, outrora, teriam recebido pouco mais de trato poético.
Há versos interessantes, realmente, mas há um ou outro clichê espalhado aqui ou acolá que, felizmente, acabam diluídos no resultado final de Bebadosamba. Picuinhas. O importante é que Bebadosamba é um disco que produz emoções que só um príncipe encantado como Paulinho da Viola poderia produzir.
Iluminado A volta de Paulinho da Viola aos estúdios de gravação deveria ter acontecido em 90. O repetório já estava todo definido mas de repente...Eu não consigo explicar direito o motivo, mas quando estava pronto para começar a gravar alguma coisa me disse: a hora não é agora, você está forçando a barra- revelou o compositor à Folha2.
Em outras palavras, ele foi acometido dos famosos cinco minutos que, na verdade, duraram oito anos. Mesmo assim, ele afirma que os longos intervalos que dá entre um disco e outro não podem ser interpretados como marca registrada ou coisa que o valha. Não tem essa de intervalo, não. Se eu achar legal posso perfeitamente daqui a um ano entrar nos estúdios para gravar um novo disco- avisa.
A quase uma década sem dar o ar da graça nas prateleiras de disco só foi interrompida em março desse ano quando ele se sentiu à vontade para volta a gravar. Recolheu-se em algum canto e pôs-se a pensar em Bebadosamba. Do repertório que havia escolhido para gravar em 90 ele pinçou apenas Dama de Espadas. As demais foram escolhidas, feitas ou depuradas até julho, quando finalmente começou a gravar.
O resultado final agradou em muito a ele. Porém, o perfeccionismo ainda fala mais alto. Eu sou muito crítico com o meu trabalho. Por isso eu digo: o disco tem defeitos. Depois que eu o ouvi percebi que poderia ter feito melhor isso ou aquilo- avisa. Não entenda como pretensão, mas para mim toda obra é meio suja porque o conceito de limpeza é relativo- completa. Coisas de um crítico Paulinho.
Longe do sentido metafórico, sujeira mesmo é o que alguns grupos vêm fazendo com o pagode. Sobre isso, Paulinho evita fazer comentários mais incisivos até porque ele conseguiu encontrar graça em alguns desses grupos. Não podemos generalizar e dizer: tudo é uma merda. Tem bobagens mas tem também muitos grupos interessantes que fazem um som mais interessante que alguns sambas de enredo que agora tem um andamento que parece marcha- diz, citando os grupos Catinguelê, Raça e Fundo de Quintal como algumas das coisas boas.
Tais grupos devem ser sentir lisojeandos com o elogio. Afinal, Paulinho da Viola é um iluminado do samba que, inexplicavelmente, não é tão executado como deveria nas rádios AMs e FMs. Nem por isso ele deve ser classificado de elitista, apesar de ser paparicado pelos mais expressivos nomes da intelectualidade, sempre de prontidão para apontar o que serve e o que não serve para o povão.
Paulo César Batista de Faria, ou simplesmente Paulinho, é apenas um senhor sambista de 53 anos que sofre de excesso de modéstia até quando indagado sobre sua maneira singular de cantar.Uma ou outra vez eu tive esse preocupação em saber se era um intérprete ou não. Eu, na verdade, sou apenas um compositor, um sambista. Quando canto quero apenas mostrar uma música. Só isso. Coisas de um modesto Paulinho que não devem ser levadas a sério.


