ÁCIDAS PALAVRAS DE BORGES
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de setembro de 2001
Nelson Sato<BR>de Londrina 
Foram duas tardes de sol. Duas tardes em Buenos Aires, em setembro de 1976, que se revelariam também tardes de sombras. Numa rara incursão, o poeta brasileiro Álvaro Alves de Faria conseguira entrevistar Jorge Luis Borges em seu apartamento na Calle Maipú, quebrando a habitual aversão do escritor argentino a jornalistas.
O encontro foi traumático para o brasileiro, então editor do ''Jornal de Domingo'', suplemento do Diário de São Paulo. Borges revelou-se amargurado, deprimido e rancoroso. A conversa, que fora pontuada por longos silêncios e imprecações contra o barulho do elevador, ficou engavetada por mais de duas décadas e só agora chega ao público com a publicação do livro de bolso ''Borges O Mesmo e o Outro''.
O lançamento é da editora Escrituras. O livro, de apenas 80 páginas, traz um relato jornalístico de viés climático e com pretensões literárias. ''Estava diante de um homem preso nos próprios labirintos'' escreve o autor ''mas sem perder a noção de seu tempo, mesmo que não exista tempo, mesmo que não exista nada. Um homem que de vez em quando lembrava a figura de seu pai morto em 1938 e falava com profundíssima tristeza sobre sua mãe Leonor, morta alguns meses antes. Esse homem que, em certos momentos, parecia desaparecer na poltrona, afundando dentro dela, como se a caminhar por dentro de si, dentro de seus próprios escombros''.
O visitante pinta uma figura nada cativante de Borges, ainda que tenha sido recebido com chá e cordialidade. O texto intercala suas impressões com as falas e trechos de livros do entrevistado. Faria não poupa parágrafos para ressaltar a desesperança que rouba a alma do autor de ''Ficções'' e ''O Aleph''. Num trecho anota: ''Entro e sinto o cheiro de uma profunda solidão. Uma solidão palpável, sólida, amarga, violenta, assustadora''.
Mais adiante, salienta: ''Vejo agora na minha frente um dos maiores escritores do mundo, mas vejo também um homem cansado e profundamente ressentido com tudo e com quase todos''. Ele apresenta um Borges cercado de fantasmas, megulhado na penumbra, desfiando contrariedades entre quadros antigos, peças de prata sem limpar e cortinas pesadas.
Sentado, com a bengala do lado, o bruxo lamenta o fato de não ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura. Dispara maledicências contra Pablo Neruda e Saul Bellow, dois dos ganhadores. Afirma odiar a política e os políticos, mas elogia os militares que tomaram o poder. ''A democracia é uma coisa que não existe, uma superstição do homem que pensa ser livre. O homem não é livre. Sou favorável aos regimes duros'' diz.
Invoca seu desprezo aos escritores latino-americanos. ''Não existe nada na América Latina. O continente inteiro é um romance mal escrito'' sentencia. As diatribes prosseguem ao longo das páginas do volume. Ao final, o autor reserva um bloco com fotos e frases soltas que constróem um perfil repulsivo do escritor, o que deverá garantir uma recepção nada amena ao livro.
q''Borges O Mesmo e o Outro''. De Álvaro Alves de Faria. 80 páginas. R$ 9,80. Editora Escrituras (telefax: 11/5082-4190). E-mail: [email protected]


