A cama estava encharcada de suor, eu transpirava bicas quando do nada me curvei e acordei de repente. Acendi a luz e a vida se fez presente no meu então sombrio quarto. Pesadelo? Tragédia romana? Sonho indeciso? Sei lá o que foi. A única coisa que me lembro é que morri. Sério! Como diriam os mais antigos. ''Passei dessa pra melhor'', ''Juntei as botas'', ''Eu vim a faltar''.
Morri e sem qualquer cerimônia me vi deitado em meio a um monte de flores amarelas ridículas que coçavam minhas narinas que estavam intoxicadas com toneladas de algodão de marca duvidosa, fazendo com que eu juntasse todas minhas últimas energias e me concentrasse de maneira descomunal e objetiva para não estragar toda minha apoteose com um simples e mortal espirro.
Em meio a multidão que se aglomerava em minha volta, para uma última olhadinha cadavérica (estilo Zé do Caixão), reconheci de longe o Miltão. Figura com quem sempre me identifiquei pelo bom humor. Ele em alto e bom som a lá Silvio Santos (que ele imitava perfeitamente) vinha no melhor da festa:
- Ele morreu... Ele m-o-r-r-e-u...
Eu ria pra dentro. Se é que isso é possível. Afinal não seria eu a estrela principal que iria estragar a festa. De repente a escuridão. Acho que fecharam meu caixote. Aos solavancos, como se o Schwarzennegar estivesse carregando meu caixão, percebi que rumava em direção a minha nova morada.
Nesses minutos que antecederão o fim da cerimônia é que me toquei da verdadeira função em toda a minha passagem terrena. Eu finalmente ia servir pra alguma coisa. Iria a dali algumas horas servir de comida para vermes e parasitas. Dali alguns dias os vermes comeriam a carne, a terra comeria os vermes, a grama sugaria a terra e algum bicho comeria a grama. Eu iria sem dúvida nenhuma virar estrume nessa cadeia alimentar toda.
Foi quando acordei. Acordei em todos os sentidos. Hoje quando alguém me diz:
- Vá a m...!!
Eu penso na hora: - Ufa! Não estou sozinho nessa, achei alguém que esteve lá.
FERNANDO BORGHI é escritor em Arapongas e tem dois livros publicados de forma independente ''Mamãe Heavy Metal'' e ''A Vaca que Miava''

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