Doce pelas recordações da juventude, pelo apoio justo a uma amiga em crise e doce porque a oportunidade de ver o primo querido, dia sim, dia não, é irresistível. Um dia é um abraço demorado, outro é o nó da gravata a ser consertado, outro ainda é um jantar na companhia de Sabrina, ele desacompanhado da mulher, pés juntos debaixo da mesa, olhares cúmplices, texto cheio de segundas e terceiras intenções. E Sabrina sem perceber o reacendimento do flerte. Muito mal está a prima no seu exílio para ter outro registro que não o de suas queixas e dúvidas.
Azeda à confusão alheia pelos anexos inevitáveis. No quinto dia, acabou a tranquilidade do cerco que Amarilys estava armando ao primo fóbico e tão querido, nada dura para sempre. A cunhada de Sabrina apareceu para uma visita de pêsames. Como se tomar distância do marido e dos filhos por uns dias fosse uma submorte para uma mulher que se preze. Como se não retornar logo ao caminho do bem fosse um risco intolerável à saúde mental dos filhos, à felicidade da esposa em questão, Sabrina, e, o pior, à fidelidade do marido. "E se ele trocar você por uma garota de 20 anos, mais bonita e mais magra?", angustiava-se a mulher do primo cobiçado por Amarilys, questionando a loucura da cunhada em abrir mão de suas posições.
No oitavo dia, apareceu o marido. Igualzinho ao que a mulher descrevia e quase irreconhecível às lembranças de Amarilys. Sumira o rabo de cavalo, o estilo bad boy da juventude. Mais conservador, impossível. E o texto? Começou entre resmungos e sustos. Resmungos porque a empregada não sabia cozinhar sem supervisão, a filha saia sem dizer para onde, os filhos pequenos dando trabalho na escola.
Estava faltando ao lar a governanta, a secretária e babá
ele não dava conta. Susto porque, a essa altura, Sabrina já cortara o cabelo e começa, tímida, a frequentar os Vigilantes do Peso. Saíra também com o irmão para uma rodada de compras, roupas novas, mesmo sabendo que se emagrecer vai perdê-las todas. "É o mínimo que ele pode fazer por mim, depois de eu ter aguentado a conversa terrorista daquela chata com quem ele se casou", confidenciou Sabrina, vingativa, para uma Amarilys, também zangada. Uma coisa deve-se reconhecer, aceitou contrito as queixas da irmã, prometeu manter a mulher distante da casa de Amarilys enquanto durasse o exílio de Sabrina e assinou os cheques, sem reclamar. "Não é um doce o meu irmão?", perguntou maliciosa, exibindo os modelitos. Tão doce e com uma mulher tão irritante, que as intenções de Amarilys se tornam cada dia piores.
Às vezes, anjos travessos protegem más intenções. Começava a degringolar a discussão entre Sabrina e o marido, no oitavo dia, quanto tocou a campainha. Amarilys, recolhida no quarto, cansada já de problemas de casamento alheio, apareceu para atender. Os dois, marido e mulher, se calaram emburrados. Era o primo, o cunhado, o irmão. Vindo direto do trabalho, terno novo, caramelo, gravata italiana, flores e vinho na mão. Reluziram os olhos de Amarilys. Constrangidos os dois homens, Sabrina, malvada, ia envolvendo o irmão como árbitro, quando Amarilys sugeriu que saísse o casal, conversassem um pouco sozinhos, circular pela noite de São Paulo, sem filhos, sem compromissos, quem sabe não conseguissem achar soluções com mais tranquilidade? Se ela tivesse o carro no momento, emprestava. Mas a oficina... podia pegar um táxi... Hesitações, Sabrina rancorosa, o marido indeciso, o primo despertado da letargia dos últimos vinte anos, resolveu o impasse. "Vão no meu carro, pego eu um táxi depois para casa."
Sabrina deslumbrante, arrumada por Amarilys, o marido tomando o vinho trazido pelo cunhado, quase engasgou quando as duas voltaram à sala. "Amanhã, vocês deixam o carro lá em casa" disse o primo magnânimo, na despedida, "vou acabar o vinho com Amarilys e tocar para casa." Ah, esse vinho, essa noite, Amarilys nunca adorou tanto uma confusão quanto aquela. Mas essa é uma outra história.Por Sônia Rodrigues Amarilys não gosta de confusões alheias. Só as suas e, mesmo assim, apenas no caso de valerem o esforço de administrá-las. Hospedar a prima Sabrina no seu exílio conjugal tem sido, no entanto, uma confusão inevitável. Agridoce, a bem da verdade.

mockup