A comunicação não depende apenas do recurso sonoro. As sombras também são sinônimos de ''vida'' e nos ajudam a contar histórias, demonstrar sentimentos e ampliar o grau de expressividade.
E quase como uma brincadeira, onde se ensina e aprende, 11 alunos de 14 a 21 anos do Instituto Londrinense de Educação de Surdos (Iles) participaram na semana passada de uma oficina com integrantes da Cia Teatro Lumbra, do Rio Grande do Sul, uma das poucas do Brasil que se dedicam à arte milenar do teatro de sombras. A atividade foi resultado de uma parceria com o Festival Internacional de Teatro (Filo).
Com a coordenação de Alexandre Fávero e Fabiana Bigarella, diretor e psicóloga do grupo, respectivamente, durante três dias os alunos tiveram a oportunidade de mergulhar nesse mundo onde fazer e perceber sombras é sinônimo de comunicação e arte. Na tela improvisada, com um pano branco, elas ganham silhuetas, projeção, forma, expressão, profundidade, além de ares de tragédia, drama ou humor.
''Gostamos de usar a palavra vivência para definir esse tipo de trabalho e o nosso objetivo é sensibilizar as pessoas interessadas a usar a sombra como ferramenta de expressão, seja ela utilizada no teatro, cinema, publicidade, música, dança ou artes plásticas'', ressaltou Fávero.
Pela primeira vez atuando com um público surdo, o diretor se surpreendeu com a disponibilidade demonstrada pelos estudantes: ''Eles estavam muito dispostos a aprender uma outra forma de expressão corporal. Só tivemos que ajustar a questão de ritmo, pois eles são muito ágeis e no teatro de sombra a história deve ser 'contada' de forma mais lenta para um entendimento mais claro do espectador''.
Como fechamento do trabalho, na última quarta-feira os alunos fizeram uma apresentação para seus familiares com pequenas esquetes teatrais. Imagens simbólicas, algumas com música, fizeram parte da demonstração. Os estudantes foram filmados e depois assistiram às suas atuações, durante os ensaios.
''Eles são muito críticos e usaram a técnica do vídeo para se corrigir. O teatro de sombra é uma arte de origem oriental que precede o cinema e de certa forma eles estão fazendo o 'cinema mudo', que tem ligação direta com o olhar, o gesto, o tempo'', comentou o diretor Fávero. A psicóloga Fabiana complementou que esse trabalho é um ''potencializador das ideias e suporte de criação'' e a proposta é que os próprios alunos deem continuidade contando com a própria criatividade.
Se depender da empolgação de pelo menos dois alunos participantes, isso deverá acontecer. Com a ajuda da professora e intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras) Jane Bastos Alves, Douglas Koman, 15 anos, contou que adorou a atividade e que está ansioso para ensinar a técnica aos alunos menores. Adrian F. Montanha, 20 anos, que mora em Rolândia, não mediu esforços para participar das atividades no contraturno. Demonstrando bastante afinidade com o teatro, Montanha disse que achou muito interessante conhecer a técnica do teatro de sombra e que chegou a treinar no espelho para obter a melhor performance das formas criadas com o seu próprio corpo. ''Quero muito estimular a criação nos outros alunos, assim como fizeram com a gente'', garantiu.
Jane, que também coordena o coral e grupo de dança do Iles, elogiou a iniciativa e pontuou que esse intercâmbio artístico tem contribuído para explorar a potencialidade artística das pessoas surdas e melhorar o acesso delas a esses bens culturais. ''A falta de audição é uma limitação para algumas coisas, mas não para a arte'', concluiu.

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