Dorico da SilvaTerceiro lote de discos traz preciosidades da música nacionalEra um trem tão rápido, mas tão rápido que eu comprei passagem de ida e volta. Quando pisei no vagão para entrar o cobrador me falou: ‘‘Pode descer que nós já voltamos’’. As piadas da dupla Jararaca e Ratinho fizeram escola no rádio brasileiro e, às vezes, escondiam um outro talento da dupla: o musical.
Ambos eram bons melodistas. Ratinho se dedicava a choros e valsas. Jararaca trabalhava as letras, preferindo emboladas e cocos bem-humorados. As primeiras gravações da dupla apareceram em 1922, mas sua obra permanece praticamente esquecida na atualidade.
Agora, com o lançamento do terceiro lote do selo Acervo Funarte da Música Brasileira, essas composições podem ser relembradas. O selo é uma parceria entre o Itaú Cultural, a Funarte e a Atração Fonográfica, e está resgatando parte importante do acervo da música brasileira em interpretações e álbuns de qualidade.
No disco de Jararaca e Ratinho, por exemplo, foram respeitadas as brincadeiras e piadas com as quais a dupla antecipava uma interpretação. Entre as nove faixas estão ‘‘Espingarda ...Pᒒ e ‘‘Sapo no Saco’’, de Jararaca, ‘‘Saxofone, Por Que Choras?’’, ‘‘Colegas da Lira de Xopotó’’ e a valsa ‘‘Vera’’, de Ratinho.
O álbum dá uma amostra do talento da dupla. Certa vez, viajando ao Recife, Pixinguinha encontrou Jararaca e Ratinho quando ainda faziam parte do grupo Os Boêmios. O saxofonista não hesitou, convidando-os para ir ao Rio de Janeiro. Morando na capital, se apresentaram até para o presidente Epitácio Pessoa. Mas o grupo se diluiu em 1925, e Jararaca e Ratinho seguiram como dupla.
Outro destaque do novo pacote é o disco dedicado a Ismael Silva, com interpretações de Jards Macalé e Dalva Torres. O interessante neste álbum, além das composições de Silva, são os arranjos de Maurício Carrilho, que trazem recursos pouco convencionais.
Em ‘‘Com a Vida que Pediste a Deus’’, palmas ajudam na marcação. Em ‘‘Ironia’’, o antigo violão tenor é desenterrado por Pedro Amorim. Oscar Bolão toca uma caixa com escova em ‘‘Eu Gosto, mas Não É Muito’’, e em ‘‘Sofrer É da Vida’’ aparecem assobios, tapas na barriga e até estalar de dedos. Sem falar em ‘‘Novo Amor’’, em que Dalva canta por um tubo metálico e Tulio Mourão toca um piano acústico com correntes sobre as cordas.
O talento dos intérpretes é realçado em ‘‘Contrastes’’, com Dalva Torres e João de Aquino no violão. Dalva também se destaca em ‘‘Coisa Louca’’, com ótimo acompanhamento de bandonion executado por Ubirajara do Bandônion. Jards Macalé entoa ao violão ‘‘Antonico’’, com uma interpretação bem personalizada.
Outra boa surpresa do pacote é a Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco, que mergulha em frevos e maracatus com a mesma facilidade que transita pela música erudita. Composta por bandolins, violões, violas, cavaquinho, baixo e percussão, a Orquestra conta com arranjos requintados para composições como ‘‘Pedra Terra’’, de Nilton Rangel e João Lira, ‘‘Lamento Nordestino’’, de Marcos da Costa Araújo, e ‘‘Mourão’’, de Guerra Peixe.
A coleção do Acervo Funarte também não se restringe ao popular e folclórico, abrindo espaço para compositores eruditos ou contemporâneos. Em ‘‘A Retirada da Laguna’’, o destaque fica para a Orquestra Sinfônica Nacional da Rádio MEC, que interpreta músicas de Guerra Peixe sob a regência do mesmo. São dez faixas que incluem ‘‘Canção à Fraternidade Universal’’, ‘‘Uma Noite Calma’’ e ‘‘Esperança no Campo das Cruzes’’.
Os lançamentos trazem ainda ‘‘Missa de Santa Cecília’’, obra do padre José Maurício Nunes Garcia que ganha interpretação da Associação de Canto Coral e Orquestra Sinfônica Brasileira, com regência de Edoardo de Guarnieri. A missa é a última obra de um dos compositores mais importantes do período do Império, morto em 1830. A música foi finalizada em 1826 e composta em menos de 30 dias.
Entre os músicos lembrados pelo acervo está Candeia, que, com apenas 17 anos, ajudou a Portela a ganhar nota dez em todos os quesitos de um desfile de Carnaval compondo o samba-enredo. O regente, maestro e compositor Camargo Guarnieri também ganhou um álbum próprio com os concertos nº 3 e nº 4 para piano.
Carlos Gomes é lembrado na interpretação do pianista Fernando Lopes, professor da Unicamp, em ‘‘O Piano Brasileiro de Carlos Gomes’’. Com o disco ‘‘Documento Sonoro do Folclore Brasileiro volume 3’’ o acervo registra manifestações folclóricas como o calango, no Rio de Janeiro; o ticumbi, no Espírito Santo; o coco, em Sergipe, e a Banda de Congos do Espírito Santo. Já ‘‘Projeto Vitrine’’ tem intérpretes como Zizi Possi, Grande Otelo, Oswaldo Montenegro e Mongol.
A coleção do Acervo Funarte da Música Brasileira traz ainda, nas capas, ilustrações de chargistas brasileiros como Spacca e Newton Foot. Na parceria, o Itaú Cultural distribui duas mil cópias de cada disco para entidades culturais. A Atração Fonográfica fica responsável pela distribuição dos CDs para venda nas lojas. Entre os próximos lançamentos estão obras de Mário de Andrade, Radamés Gnatalli e Waldemar Henrique.

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