ACERVO - Raridades que enfeitiçam COLECIONADORES
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sábado, 25 de agosto de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O alerta foi dado, mas somente alguns privilegiados, que têm nas mãos a primeira edição do ''Manual Prático do Vampirismo'', de Paulo Coelho, que assina a obra em co-autoria com o seu pseudônimo, Nelson Liano Jr., podem esconjurar o príncipe das trevas que, nos vaticínios do autor, vampiriza populações inteiras de um país, mantidas inconscientes como mortos-vivos.
A tentativa do mago do mercado editorial brasileiro, que conseguiu vampirizar uma legião de leitores ao redor do planeta, de explicar o mito dos vampiros, é um livro que os caçadores de raridades só encontram na internet e em sebos.
O manual foi proibido pelo próprio Coelho, que considerou a obra de má qualidade - como se o restante da produção do escritor não tivesse o desprezo da crítica literária.
Mesmo os que não acreditam em bruxas podem pelo menos se divertir com o manual, que afirma que os vampiros vazios estão aí, sugando a energia dos outros para conquistar poder - o que, convenhamos, o autor tem razão, já que essa é uma racinha que se multiplica em todos os lugares feito coelho.
Vale a pena dar uma morcegada nos sebos londrinenses para encontrar obras raras, como a primeira edição do ''Manual Prático do Vampirismo'', com o nome de Coelho na capa, que mais tarde deixou só o seu pseudônimo passar vexame.
Marcelo que, com o pai, Antonio Basques, comanda o Sebo Capricho, uma rede com três lojas na cidade e que se prepara abrir uma quarta unidade, com três andares na Rua Maranhão, tem um exemplar do livro, que enfeitiça colecionares.
Para levar esse troféu, o comprador terá que desembolsar R$ 500,00. Preço considerado uma pechincha se comparado com os exemplares vendidos na internet, que podem custar até R$ 800,00.
Várias vezes mais caro que o DVD com a primeira vez que Xuxa fez a alegria dos baixinhos ao se deitar nua sobre um garoto de 12 anos de idade em ''Amor, estranho amor'', filme que a apresentadora de TV gostaria de apagar da trajetória e que os camelôs comercializam por R$ 5,00, a Playboy da rainha, como veio ao mundo, também é uma raridade no sebo de Basques. Ele entrega a loira nuazinha a quem estiver disposto a pagar R$ 300,00 pela edição de dezembro de 1982.
Apesar do preço tem gente capaz de pagar esse valor para ter a Xuxa nua - ainda que nas páginas da revista tanto na ansiedade de ampliar a coleção ou para acalmar qualquer outro desejo. ''Há dois meses, vendi um exemplar. Hoje, tenho outros dois que estão em duas das nossas lojas'', comenta Basques.
Raridades representam um negócio da China tanto que para bombar na inauguração da nova loja, uma megastore do livro usado, o empresário comprou um acervo de 12 mil livros de ex-prefeito londrinense José Osken de Novaes.
O valor da transação, a família de advogado, que morreu no ano passado, não divulga. Porém, não foi a preço de banana, já que além de reunir coleções raras, dignas de uma das maiores bibliotecas jurídicas do Paraná, o acervo tem um valor histórico inestimável.
Para se ter uma idéia de quanto o empresário pode ter investido na biblioteca, há pouco tempo, ele arrematou sete mil livros - pouco mais da metade do acervo de Osken - de um advogado de Presidente Prudente (SP). Basques destaca que aquele acervo não tem a mesma representatividade histórica da biblioteca de Osken, mas pagou R$ 21 mil pelos livros.
Anteriormente, o empresário tinha comprado cinco mil livros da biblioteca particular do ex-prefeito, com livros de literatura, filosofia e sociologia.
''Acredito que a cidade sofrerá um prejuízo cultural com essa negociação. Tentei vender a biblioteca para várias instituições de ensino superior, o que acabou não dando certo. No sebo, as obras serão comercializadas avulsas porque têm um valor comercial maior. Além de raras, as coleções estão completas'', ressalta Basques.
Entre os livros de Osken de Novaes que irão para a megastore está uma coleção de Paulo Lacerda e que não tem preço de mercado. ''Nesse acervo temos obras que eu, com a experiência de 10 anos no ramo, somente ouvi falar e nunca tinha visto um exemplar. Livros que você somente encontra um ou dois no Brasil, referências até para autores jurídicos clássicos, que citam essas obras'', avalia a importância do acervo, o empresário, que ainda não tinha feito um investimento tão grande em livros.
A biblioteca de Osken, que está sendo encaixotada, ocupava oito cômodos de um sobrado na Rua Purus, na Vila Nova, guardando, por exemplo, 150 livros de Ruy Barbosa.
A obra mais antiga do acervo, que Basques encontrou, é um ''Dicionário da Língua Portugueza'', de 1813, de Antônio de Moraes Silva. Um exemplar do ''Código Philippino do Reino de Portugal'', de 1869, também se destaca na biblioteca.
Obras mais recentes dessa aquisição encontram valor de comércio importante, como um exemplar de ''Os Sertões'', de Euclides da Cunha, edição de 1968. ''O que valoriza esse exemplar são as ilustrações de Aldemir Martins'', explica Basques. Martins ocupa a galeria dos grandes artistas plásticos brasileiros.
Detalhes como as ilustrações de Martins em um livro ajudam empresários de sebos a definir o valor de uma obra. ''Quando se trata de obras raras, não existe um parâmetro. A avaliação leva em consideração a dificuldade de encontrar um exemplar, se o autor é clássico e os exemplares estão esgotados'', comenta Basques.
Em uma de suas lojas, o empresário reserva um lugar especial para os raros, evitando o manuseio maior dos frequentadores, o que poderia denificar os exemplares.
Na estante, Basques guarda obras, como ''História da Literatura Portuguesa'', de 1897, as ''Obras Seletas de Ruy Barbosa'' e uma edição, de ''Em Vez'', de Carlos Lacerda, que pertenceu ao acervo da biblioteca particular de Osken de Novaes, e que traz um autógrafo do autor.
Sebos e livros raros são um negócio da China também para o restante da família do empresário, que ainda tem primos e um tio, que abriram lojas na cidade. Há sete anos, João Basques se rendeu ao comércio de usados e aposta também nas raridades.
Além de um exemplar de ''Os Sertões'', o empresário guarda com cuidado dois livros de poesias de Gonçalves Dias de 1910. Raridades que juntas custam em sua loja apenas R$ 30,00.
Em se tratando de preços, alguns exemplares raros podem ter essa vantagem custando uma ninharia - desde que, lógico, não estampem uma Xuxa peladona. Por isso, vale a pena dar uma de vampiro e correr atrás de um pouco do sangue doce da boa leitura, escondido no fundo de uma estante.


