São Paulo - Famílias disfuncionais são extremamente comuns, mas a do Nobel alemão Günter Grass parece feita sob medida para abrigar como patriarca um ex-combatente da Waffen-SS, o braço forte da tropa de elite nazista. Após surpreender o mundo literário com revelações sobre seu escandaloso passado no autobiográfico "Nas Peles da Cebola", publicado aqui em 2007, Grass lançou um ano depois, na Alemanha, "A Caixa", vendido como uma espécie de sequência ficcional do livro. Não é. Agora traduzido no Brasil por Marcelo Backes, "A Caixa" é o que os alemães chamam de Vergangenheitsbewältigung, palavrão para designar um acerto de contas, uma reconciliação com o passado que, no caso do autor de "O Tambor", interessa particularmente pela militância de Grass para obrigar a Alemanha a revisitar uma história que preferia ver enterrada.
Na época do lançamento de "Nas Peles da Cebola", Grass foi chamado de desonesto e hipócrita. Como, então, um homem que se diz a consciência política da Alemanha, Nobel respeitado, conseguiu esconder por tanto tempo seu passado nazista? Talvez, seguindo a recomendação do filósofo Santayana, o autor não quisesse que seus oito filhos repetissem no futuro seus erros do passado. Mas, para superar a bestialidade nazista, é preciso algo além da reconciliação com o passado. Talvez a memória dos outros ajude mais que a de um escritor autocentrado como Grass. E foi assim que nasceu "A Caixa" - afinal, um bom livro sobre como os filhos constroem uma imagem paterna sem a interferência de sua retórica literária, como se usassem uma máquina fotográfica.
Na verdade, a máquina que dá título ao livro não pertence a eles, mas a uma amiga e confidente, chamada no livro de Mariechen - na vida real, a fotógrafa Maria Rama, que fotografou Grass e sua família com uma Agfa Box 54, primeira câmera alemã realmente popular e em forma de caixa.
Como um retrato cubista construído de fragmentos das memórias dos filhos, o de Grass parece um tanto estranho à primeira vista, visto de ângulos que não favorecem muito o escritor. Pai ausente de oito filhos (alguns legítimos, outros vindos de um segundo casamento), ele evoca pelo intermédio das crianças o passado de uma geração nascida na cínica era Adenauer.
As reflexões dos garotos parecem conversas na mesa do jantar registradas num gravador caseiro. O livro começa justamente em 1959, quando Grass publica um de seus mais populares livros, "O Tambor" - não por acaso, a história de um garoto que se recusa a crescer, narrada por um interno de hospício.
O exame moral de Grass não revela nada além do que se leu em "Nas Peles da Cebola", mas a escolha do ano de "O Tambor" como ponto de partida é reveladora. Empenhado numa luta pela reabilitação de sua imagem, arranhada pela publicação da autobiografia, ele ficcionaliza a própria vida, trocando os nomes dos filhos e usando o recurso da terceira pessoa. Essa estratégia apenas reforça a imagem que emerge dos instantâneos de Mariechen, a de um pai distante sempre envolvido na produção de romances e tentando manter os pequenos à distância. "A Caixa" é para eles, de fato, a única possibilidade de reconciliação com o passado.

Serviço:
"A Caixa"
Autor - Günter Grass
Editora - Record
Tradução - Marcelo Backes
Páginas – 224
Quanto - R$ 42

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