Acerto de contas com o passado
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de abril de 1999
Celso Mattos 
Depois de realizar Brincando nos Campos do Senhor (1990), Hector Babenco ficou oito anos sem filmar. Durante esse período longe dos sets, ele lutou contra um câncer linfático que quase o levou à morte. Recuperado da doença, após se submeter a um transplante de medula óssea, o cineasta sentiu a necessidade de realizar um filme mais pessoal e intimista. Foi então que nasceu Coração Iluminado - já nas locadoras. Uma obra com traços autobiográficos que fala de recordações afetivas. Uma espécie de acertos de contas com passado.
Usando como cenário um balenário da América Latina, Babenco narra a história de um homem que depois de 20 anos de ausência, volta à sua cidade natal para visitar o pai doente. Descobre que sua primeira namorada, que ele imaginava ter morrido após um pacto suicida, está viva. Na busca deste amor do passado, encontra outra mulher, com quem revive a mesma paixão sem limites. Como se o tempo não tivesse passado e como se as duas mulheres fossem a mesma. Babenco constrói sua obra em forma de fragmentos esquecidos, que vão sendo lembrados quase que aleatoriamente.
Selecionado para o Festival de Cannes, no ano passado, Coração Iluminado não teve uma boa receptividade e acabou dividindo a crítica. No Brasil, o filme também não obteve o reconhecimento merecido. O que é lamentável. Este último trabalho de Babenco pode não ser tão bom quanto Ironweed, O Beijo da Mulher Aranha ou Pixote, mas é uma obra de grande poesia. Uma declaração de amor à vida.
No início, Coração Iluminado teria um elenco internacional estrelado por Nastassja Kinski, Irene Jacob e Willem Dafoe. Mas como se tratava uma obra muito pessoal, Babenco sentiu que o filme tinha que ser falado em espanhol e não em inglês. Foi então que ele decidiu mudar o projeto e reunir um elenco formado por atores brasileiros e argentinos. Maria Luisa Mendonça, Xuxa Lopes, Miguel Angel Solá, Walter Quiróz e Norma Aleandro vivem os papéis principais. A direção de fotografia ficou mais uma vez a cargo de Lauro Escorel, um dos mais importantes fotógrafos brasileiros.
Apesar de ser uma história sobre o passado, Hector Babenco conseguiu escapar de uma abordagem nostálgica. Sem narração em off ou flashbacks, o cineasta faz uma investigação das repercussões dos acontecimentos passados sobre o presente. Partindo desta premissa, Coração Iluminado se aproxima de filmes como Ondas do Destino, Segredos e Mentiras e O Piano que têm o passado interferindo no presente de seus personagens de forma radical e poética.
A atriz brasileira Maria Luisa Mendonça faz um dos papéis mais interessantes do filme. Ela interpreta Ana, uma pessoa em permanente transformação, mas muito inteira e intensa em tudo o que faz. Mas as qualidades de Coração Iluminado vão muito além. O diretor abusa da simbologia, criando uma narrativa transgressora que não está preocupada apenas em contar uma história, mas em mostrar como as lembranças se projetam em nossa memória e interferem em nossas vidas. Lançamento da Columbia TriStar. Duração: 132 minutos.


