Depois de realizar ‘‘Brincando nos Campos do Senhor’’ (1990), Hector Babenco ficou oito anos sem filmar. Durante esse período longe dos sets, ele lutou contra um câncer linfático que quase o levou à morte. Recuperado da doença, após se submeter a um transplante de medula óssea, o cineasta sentiu a necessidade de realizar um filme mais pessoal e intimista. Foi então que nasceu ‘‘Coração Iluminado’’ - já nas locadoras. Uma obra com traços autobiográficos que fala de recordações afetivas. Uma espécie de acertos de contas com passado.
Usando como cenário um balenário da América Latina, Babenco narra a história de um homem que depois de 20 anos de ausência, volta à sua cidade natal para visitar o pai doente. Descobre que sua primeira namorada, que ele imaginava ter morrido após um pacto suicida, está viva. Na busca deste amor do passado, encontra outra mulher, com quem revive a mesma paixão sem limites. Como se o tempo não tivesse passado e como se as duas mulheres fossem a mesma. Babenco constrói sua obra em forma de fragmentos esquecidos, que vão sendo lembrados quase que aleatoriamente.
Selecionado para o Festival de Cannes, no ano passado, ‘‘Coração Iluminado’’ não teve uma boa receptividade e acabou dividindo a crítica. No Brasil, o filme também não obteve o reconhecimento merecido. O que é lamentável. Este último trabalho de Babenco pode não ser tão bom quanto ‘‘Ironweed’’, ‘‘O Beijo da Mulher Aranha’’ ou ‘‘Pixote’’, mas é uma obra de grande poesia. Uma declaração de amor à vida.
No início, ‘‘Coração Iluminado’’ teria um elenco internacional estrelado por Nastassja Kinski, Irene Jacob e Willem Dafoe. Mas como se tratava uma obra muito pessoal, Babenco sentiu que o filme tinha que ser falado em espanhol e não em inglês. Foi então que ele decidiu mudar o projeto e reunir um elenco formado por atores brasileiros e argentinos. Maria Luisa Mendonça, Xuxa Lopes, Miguel Angel Solá, Walter Quiróz e Norma Aleandro vivem os papéis principais. A direção de fotografia ficou mais uma vez a cargo de Lauro Escorel, um dos mais importantes fotógrafos brasileiros.
Apesar de ser uma história sobre o passado, Hector Babenco conseguiu escapar de uma abordagem nostálgica. Sem narração em off ou flashbacks, o cineasta faz uma investigação das repercussões dos acontecimentos passados sobre o presente. Partindo desta premissa, ‘‘Coração Iluminado’’ se aproxima de filmes como ‘‘Ondas do Destino’’, ‘‘Segredos e Mentiras’’ e ‘‘O Piano’’ que têm o passado interferindo no presente de seus personagens de forma radical e poética.
A atriz brasileira Maria Luisa Mendonça faz um dos papéis mais interessantes do filme. Ela interpreta Ana, uma pessoa em permanente transformação, mas muito inteira e intensa em tudo o que faz. Mas as qualidades de ‘‘Coração Iluminado’’ vão muito além. O diretor abusa da simbologia, criando uma narrativa transgressora que não está preocupada apenas em contar uma história, mas em mostrar como as lembranças se projetam em nossa memória e interferem em nossas vidas. Lançamento da Columbia TriStar. Duração: 132 minutos.

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