Vale a pena ter, por pelo menos três bons motivos. Primeiro: o dono do disco não canta. Segundo: as músicas são belíssimas, verdadeiros clássicos. Terceiro: o time escalado para interpretar as 18 faixas é de primeira grandeza. Agora, o mais estranho é que Francis Hime volta ao mundo discográfico, doze anos depois, sem cantar um ‘‘a’’ e sem tocar um dó. Ou seja, selecionou algumas de suas músicas preferidas e deu para outros intérpretes cantarem. Mesmo assim, ‘‘Álbum Musical’’ (WEA) impressiona pelo lirismo e pela consistência embora, à primeira vista, passe a forte impressão de ser um trabalho feito apenas para lembrar que Francis Hime existe e é um requintado artesão musical.
A maioria das faixas são conhecidíssimas. Foram feitas em parceria com Chico Buarque (onze, no total), Vinícius de Moraes (três faixas) e outros parceiros bissextos de Hime como Paulo Cesar Pinheiro (‘‘A Grande Ausente’’), Geraldo Carneiro (‘‘Clara’’) e Olívia Hime (‘‘A Tarde’’). Para não cair no lugar comum, coube a Cristóvão Bastos e Marco Pereira a proeza de dar ao produto um sabor especial.
São deles a maioria dos arranjos. Em vez da secura habitual quando se trata de releituras de clássicos, a dupla optou dar uma boa recheada nas músicas sem, em momento nenhum, descambar para o desvario. Mas esse não é o único trunfo de ‘‘Álbum Musical’’. Obviamente, coube a alguns dos intérpretes (amiguinhos de Hime, em outras palavras) valorizar e/ou tornar mais simpáticas algumas faixas que, na gravação original, não soaram musicalmente tão simpáticas. É o caso de ‘‘Pássara’’, registrada por Hime, e que agora ganha a emoção visceral de Maria Bethânia. Os vibratos da baiana quase beiram o desafino, mas emocionam.
Quase todos os intérpretes dão conta e bem do recado. Tanto é que Milton Nascimento foi escolhido para abrir o disco com a comovente interpretação de ‘‘Anoiteceu’’ costurada com o elegante trombone de Vitor Santos. Outra divindade da MPB que impressiona é Paulinho da Viola que, desta vez, injeta seu charme característico em ‘‘Meu Caro Amigo’’.
MiandoGilberto Gil está tão à vontade cantando ‘‘Tereza Sabe Cantar’’ que, como Hime escreve no encarte do disco, pode levar o ouvinte a acreditar que se trata de uma música de sua autoria. Sim, Gal Costa está lá no disco. Reza a lenda, contada pelo próprio Hime, no encarte, que o disco atrasou para que a baiana pudesse soltar seus trinados em ‘‘Trocando em Miúdos’’. Não precisava tanto: Gal canta bonito mas está tão atolada na técnica que se esquece de emocionar.
Há pontos negros no disco. O mais negro de todos é Chico Buarque cantando a belíssima ‘‘Sem Mais Adeus’’. Cantando não, miando. Chico, que não fossem as notas baixas jamais poderia ser chamado de cantor, decepciona. Caetano Veloso parece não ter se dado conta de que meiguice demais não combina com a enfática ‘‘Pivete’’.
Porém, esses pormenores acabam por passar batido. Mas se ainda desejarem pelo menos três bom motivos para menos ouvir ‘‘Álbum Musical’’, lá vão: Ivan Lins cantando ‘‘Minha’’, Djavan arrebentando em ‘‘A Noiva da Cidade’’ e Olívia Hime dando a emoção exata, e agora menos batucada, de ‘‘Embarcação’’. E se isso não for o suficiente, ouça Zélia Duncan dando seu belo recado em ‘‘Atrás da Porta’’.

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