Fora os esportes radicais e computadores para troca de e-mails com os pais, pouco mudou nos acampamentos de 20 anos atrás. É a velha fórmula que combina atividades na natureza, convivência e disciplina com a sensação de independência por estar longe de casa que ainda atrai milhares de crianças nas férias de julho. Educação com recreação foi e continua sendo o lema dos acampantes.
Hoje há cerca de 120 acampamentos no País, segundo a Associação Brasileira de Acampamentos Educativos (Abae). Em torno de 25 mil crianças e adolescentes de 5 a 16 anos, por ano, passam suas férias neles. Com mais de 50 anos no Brasil, o pioneiro Paiol Grande mantém os chalés para meninos e meninas separados e atividades tradicionais como a escalada da Pedra do Baú. ''No refeitório, a criança precisa buscar sua comida e depois tirar a mesa'', conta a diretora-presidente Dora Vilares de Freitas. ''Eles aprendem a valorizar a vida simples.''
O Paiol oferece duas temporadas por ano, mas a duração da estadia encolheu. As crianças e adolescentes dos anos 70 e 80 passavam um mês acampando, enquanto hoje ficam, no máximo, 13 dias. ''A inadimplência nas escolas fez diminuir um pouco a clientela. O pai que não consegue pagar a escola não vai pagar acampamento'', explica Giovana Ranieri, do também tradicional Rancho Raneiri. Apesar da redução recente no número de devedores, as escolas particulares de São Paulo tiveram taxa de 11,3% de inadimplência em 2004. Os pacotes para passar uma semana em julho em acampamentos equivalem ao valor de mais uma mensalidade. Incluem transporte, alimentação, hospedagem e a maioria das atividades.
Cerca de 80% dos frequentadores do Rancho são indicados por escolas, que mantêm convênios com o acampamento e até pedem atividades especiais para seus alunos. A estrutura na cidade de São Lourenço da Serra permite a elaboração de projetos de estudos do meio: meteorologia, cartografia, insetos. Recentemente, o Rancho passou a oferecer também os chamados esportes de aventura, como tirolesa, ponte suspensa, teia, enduro de bicicletas. Para Giovana, o importante, no entanto, ainda é a convivência entre as crianças, o desenvolvimento da autoconfiança, da sociabilidade, do respeito às regras.
''É um lugar onde eles aprendem a lidar com a liberdade e com limites ao mesmo tempo'', define o engenheiro Luiz Alberto Ronca Martins, pai de Rodrigo, de 8 anos, e Caio, de 6 anos. Ao voltarem do acampamento, ele nota que os meninos estão mais disciplinados com relação à alimentação, maduros e confiantes. ''É uma terapia de auto-estima'', diz ele, que também frequentava acampamentos quando criança. O incentivo da prática é maior entre famílias cujos pais também tiveram boas experiências em locais semelhantes durante a infância.
A psicóloga da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) Renata Aleotti diz que é preciso conhecer bem o perfil de seu filho antes de mandá-lo para um acampamento. ''Se a criança vai para um hotel fazenda ou clube e não sai de perto da mãe, o acampamento pode ser um suplício.'' Ela também não aconselha que menores de 5 anos passem as férias sozinhos. A educadora Neide Noffs concorda com a limitação da idade, mas defende os acampamentos. ''A educação equilibrada para um desenvolvimento harmônico não é só conceitos.''
''É fundamental que a criança queira ir, que não seja só a vontade dos pais'', diz o presidente da Abae e do Nosso Recanto (NR), Marco Antônio Vívolo. O NR tem computadores para que as crianças mandem e-mails. ''Ela podia fazer isso, mas até esqueceu de mim'', conta a professora de golfe Maura Cristina Menechetti, mãe de Maria Vittória, que deve passar de novo suas férias no Peraltas. Lá, há câmeras ligadas em alguns horários para que os pais acompanhem a atividade dos filhos pela internet.
Acampamentos mais novos têm, por exemplo, monitores que só falam em inglês, como o English Camp e o organizado pelo Colégio Santo Américo para seus alunos. A Fazenda Prata, de propriedade familiar e ainda produtiva, passou a receber crianças há oito anos. São só 36 vagas diferentemente dos tradicionais, que têm capacidades para centenas e os acampantes podem tirar leite de vaca, plantar flores e cozinhar. ''É como se estivessem na fazenda da avó'', conta a coordenadora e Ana Maria Soares de Camargo.

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