Academia engole sapos gordos e valentes
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segunda-feira, 24 de março de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Qualquer ator, atriz, diretor, roteirista ou produtor nominado para este Oscar, especificamente, sabia que estava muito perto de seu grande dia. Um momento para passar à História. Assim mesmo, com maiúscula. Ou ser reduzido a uma mera estatística. Sabiam todos os candidatos que subir ao palco anteontem à noite para receber o cobiçado troféu era algo muito parecido com ingressar num clube de eleitos, numa associação de porta-vozes não de frivolidades ou agradecimentos à mãe que os pariu ou ao pai recém-falecido de vigília lá no céu, mas de urgentes e pungentes recados a quem de direito. Mais precisamente, a quem sem nenhum Direito. Assim mesmo, com maiúscula.
Os discursos do Oscar sempre foram aborrecidos. Muito. Os espectadores sempre se entediaram ouvindo uma ladainha de nomes tão extensa quanto a lista de Schindler. Este ano, apesar da recomendação dos 45 segundos de tempo-limite, a conversa infelizmente não foi outra. Quarenta e cinco segundos, uma eternidade para sobreviver num campo de batalha. Na maioria desperdiçados com a inconsequência ou a omissão. Mas nem tudo foi inútil. Se por um lado não houve o esperado aluvião de proclamas contra Bush, uma pequena mas efetiva minoria praticou e fez por merecer a histórica diferença, afrontando a censura velada.
Começou um pouco timidamente com o melhor coadjuvante, Chris Cooper, clamando por ''paz para todos nós''. Então foi a vez do mexicano Gael Garcia Bernal, o ótimo ator de ''Amores Perros'', ''Y Tu Mamán También'' e ''O Crime do Padre Amaro'', invocar a memória de Frida Khalo, que ''estaria do nosso lado, contra a guerra''. E aí veio o furação Michael Moore, melhor documentarista por ''Bowling for Columbine''. A metáfora em torno de ficção e documentário não poderia ser mais adequada: ''Vivemos tempos fictícios'', já levando as primeiras vaias da anônima metade belicista na platéia. ''Quando tivemos resultados eleitorais fictícios, elegemos um presidente fictício. Somos contra esta guerra. Que vergonha, Mr.Bush, que vergonha!'', concluiu para delírio da outra metade, pacifista. Encerrando com muita classe, o surpreendente Oscar de melhor ator, Adrien Brody, atravessou seu tempo e pediu que todos rezassem, ''a Deus ou a Alá'', para uma solução pacífica para o conflito.
Ficou claro então que a platéia estava dividida entre os que usaram suas vitórias para condenar a guerra e os que não fizeram isto; entre aqueles que aplaudiram e aqueles que vaiaram. Talvez pela primeira vez em sua história recente, Hollywood tenha se tornado um microcosmo para a nação como um todo. Mais: ao apontar ''Chicago'' como melhor filme, os eleitores da Academia escolheram entre quatro filmes que, cada um a seu modo, refletem as complicações do mundo, e um quinto, à margem desse emaranhado de angústias e premências. ''As Horas'' é a radiografia de um colapso nervoso à sombra de Manhattan. ''O Senhor dos Anéis: as Duas Torres'' é uma saga épica da luta entre o Bem e o Mal. ''O Pianista'' é um conto sobre o Holocausto. ''Gangs de Nova York'' é um estudo sobre o nascimento de uma América violenta.
Diante dessas escolhas, a Academia ficou com ''Chicago'' e mandou uma clara mensagem para o mundo. Tempos conflituosos exigem escapismo. Comam pipoca, ensaiem um sapateado e vão em frente. Lá fora é tudo sujo, barulhento e perigoso. Aqui dentro é tudo música e dança. É tudo ''all that jazz''.


