Absurdo, delirante e falido
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de agosto de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Considerado um escritor de cinema talentoso e criativo, um dos melhores de sua geração, aos 50 anos o americano Charlie Kaufman tem no currículo roteiros aclamados como ''Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças'', ''Confissões de Uma Mente Perigosa'' e ''Quero Ser John Malkovich''. A estes títulos acrescente-se agora ''Sinédoque - Nova York'', que marca também sua estreia na direção. Esta labiríntica, excessiva, exaustiva e estéril proposta intelectual e de estilo está disponível para avaliação a partir de hoje no circuito local (veja a programação de cinema na página 2).
Tentar resumir o argumento do filme é quase uma odisseia. Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) é um dramaturgo em perpétua crise criativa e existencial. Após ser abandonado pela mulher (Catherine Keener) e pela filha, ele decide utilizar o dinheiro de um prêmio literário para realizar a obra teatral definitiva, um projeto colossal que deverá ocupar o resto de sua vida, de resto pontilhada por fracassos de dimensões variadas. A obra em si não é nada menos que a recriação, em escala quase real, da vida em Nova York. Isto, de fato, é a linha geral da história. Os desdobramentos, as intercorrências, os meandros é que são elas.
Em textos criados para outros diretores, Kaufman sempre jogou com a mente, a junção de realidade e ficção temperada com toques surrealistas. Em ''Sinédoque, Nova York'', todos estes elementos estão presentes. Só que projetados em escala geométrica até quase o infinito. A transbordante imaginação de Kauffman está aqui a serviço de um novo exercício metalinguístico no qual a trama se desdobra e se retorce através de múltiplos níveis de ficção. Relato dentro do relato, representação dentro da ação, espelho no interior do espelho. Este é o jogo favorito de Kaufman, transitar sempre no limite do artifício e da prestidigitação narrativa.
Lamentavelmente, o personagem central que desencadeia o filme é insípido e pouco interessante. Ele está sempre envolvido em situações com aparência de profundidade intelectual, mas somente aparência. Colocado em imagens, o Caden vivido por Hoffman é confuso, monótono e altamente pretensioso. Isto não elimina um ou outro momento conceitualmente interessante, obtidos no contexto de um filme extremamente artificial.
Convertido em quebra-cabeças à moda David Lynch e em infinitesimal jogo de adivinhações, o filme de Kaufman é bem revelador do que se pode chamar de dimensão épica do desastre. Ao querer abordar sem qualquer limite a visão trágica de uma existência na qual o ser humano parece condenado à solidão, e o artista a ser devorado por sua própria criação, ''Sinédoque'' infelizmente mostra-se um filme falido. E ao pretender chegar mais longe do que qualquer outro realizador (o filme iguala ou supera os artifícios de ''Fellini Oito e Meio'', ''Dogville'' de von Triers, ''Palíndromos'' de Todd Solondz e ''O Show da Vida'' de Peter Weir), Kaufman se engasga com o próprio gênio e mergulha numa estapafúrdia viagem sem volta.


