Apesar da vontade, ainda tem muito homem que não saiu do armário. A maioria se trancou lá dentro e jogou a chave fora. Em se tratando de vaidade, até os mais assumidos - e que já evoluiram do básico heterossexual para o ''malhadossexual'', ''cosméticossexual'' e ''botoxessual'' - sofrem de uma dúvida cruel na hora de escolher roupas e acessórios de grife.
O assunto aqui é cultura de moda masculina. Uma tendência de interesse cada vez maior entre a macharada, apesar de muitos ainda jurarem de pés juntos (calçados com o melhor dos italianos), que não estão nem aí para modismos.
Para revelar todas as facetas desse homem, o designer de moda Mario Queiroz lança o livro ''O Herói Desmascarado - O Masculino na Imagem da Moda'' (Editora Estação das Letras e Cores) no próximo dia 13, na Livraria Cultura Conjunto Nacional, em São Paulo.
Referência nacional em moda masculina, Queiroz já desenvolveu coleções para quase todos os segmentos de grifes, estreando na edição primavera-verão 2001/2002 da São Paulo Fashion Week.
O livro é resultado de uma tese de mestrado apresentada na Pontifícia Universidade Católica (PUC) e tenta enxergar a figura masculina através dos editorais de moda da revista inglesa ''Arena Homme Plus'', desde a virada do milênio até 2007.
''Questionávamos como a moda consegue mostrar a dificuldade que o homem tem em assumir os diversos papéis, como o de pai provedor, político e de super-herói de HQs'', comenta Queiroz.
Crise de identidade que acompanha o homem desde a era jurássica aos primeiros espécimes da ''geração milennials'', turminha descolada que em 10 anos será a maioria dos consumidores - os mais velhos atualmente têm no máximo 25 anos - batizada pelos publicitários também de ''geração conteúdo'' por ser conectada às tendências e tecnologia.
''O homem está sempre tendo que superar esse reflexo que já vem da Mitologia Grega até às grandes guerras. Um homem sem direito à delicadeza, vaidade e uniformizado. Um dos pontos importantes é a dureza em que o homem está em relação à moda, sempre preso a uma forma de se vestir'', afirma o designer, acrescentando que a moda masculina permanece praticamente igual nos últimos 100 anos.
Para os caçadores de teorias de conspiração, o livro de Queiroz tem um caimento perfeito ao relacionar a Aids e o comportamento masculino, que diante da doença correu para dentro do armário.
O designer lembra que, na década de 60, os homens se liberaram, perdendo o medo de ousar na hora de escolher a roupa. Já nos anos 80, a Aids fez com que muitos se reprimissem com medo do preconceito da doença que, inicialmente, era relacionada ao universo gay.
''Antes do surgimento da Aids os homens estavam mais à vontade. Isso refletia na moda. A doença acabou mexendo com esse comportamento. A moda masculina deu muitos passos para trás. Heteros se viram com medo de serem confundidos com gays. A moda é algo muito visível. Você vê, os outros comentam'', destaca Queiroz.
Mas, eis que São David Beckham e São Justin Timberlake surgiram para salvar o guarda-roupa e estilo masculinos do básico terno e gravata.
''O livro traz fotos interessantes. Numa delas, um homem segura uma placa com os dizeres: 'Estou desesperado'. Toda vez que sente vontade de quebrar a regra, o homem também se sente limitado, não podendo mostrar a sua vaidade'', afirma o designer.
''A mídia ajuda muito a quebrar tabus ao discutir o assunto, mas acaba engessando novamente o homem como um personagem à parte'', avalia o designer.
Fica a pergunta: Para onde caminha a macharada? ''O livro é exatamente a tentativa de colocar esse assunto na roda. Acho interessante as pessoas começarem a observar fotografias de moda, são elementos ricos para a discussão''.

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