Quando Elvis Presley morreu, em 16 de agosto de 1977, o escritor Truman Capote, sempre ferino, não deixou por menos e disse que havia sido uma decisão sábia para a carreira do eterno rei do rock. Queria dizer com isso que Elvis estava acabado como artista e era melhor que se fosse enquanto a decadência não chegasse de vez. Só assim teria força para permanecer como mito. O culto sobrevive à sua morte. Elvis é um mito - além de ser um dos artistas que mais vendem discos nos Estados Unidos. Completam-se, dentro de mais algumas semanas, 20 anos da morte de Elvis. A mídia vai lembrá-lo, seus milhões de fãs espalhados ao redor do mundo vão reverenciá-lo.
O vídeo não fica fora das homenagens. A Abril Vídeo está lançando diretamente em sell trough (venda direta para o consumidor) a Edição Comemorativa de Elvis Presley. São três de seus filmes mais famosos, todos inéditos em vídeo e agora reunidos num estojo especial: ‘‘Ama-me com Ternura’’, ‘‘Estrela de Fogo’’ e ‘‘Coração Rebelde’’. O conjunto estará à venda na primeira semana de agosto em magazines e algumas locadoras. Para tornar ainda mais atraente a promoção, os consumidores vão concorrer a três passagens para Graceland, o centro do culto a Elvis. Vão poder visitar a mansão do ídolo - o cupom para concorrer está encartado no estojo especial.
Mais do que cantor, Elvis sonhava em ser ator. Hollywood exercia um fascínio todo especial sobre ele. Mas Hollywood, nos anos 50, não estava preparada para a força cultural de Elvis. Tratou de colocá-lo numa camisa-de-força, aparando suas arestas. O roqueiro rebolante, um dos símbolos da rebeldia da juventude dos Estados Unidos, era uma imagem forte demais para a então meca do cinema, que vivia de celebrar o sonho americano. Elvis encontrou poucas oportunidades de mostrar talento dramático.
Mas ele o possuía. Quem garante é Don Siegel, um dos melhores diretores B da história de Hollywood. Siegel dirigiu Elvis em ‘‘Estrela de Fogo’’, o melhor filme que integra o estojo especial da Abril. É um western , com roteiro do especialista Clair Huffaker, que o escreveu (com Nunnally Johnson) pensando em Marlon Brando no papel. Elvis faz um mestiço índio forçado pelas circunstâncias a enfrentar o meio-irmão branco.
Tragédia familiar O filme começa como um relato de aventuras e, na segunda metade, se torna progressivamente mais sombrio, com o herói assumindo uma atitude grave e cada vez mais trágica, enquanto a história avança para o confronto e para a morte.
Elvis, que na maioria de seus filmes tem apenas de cantar e sorrir - e, às vezes, o faz muito bem, como no esfuziante musical ‘‘Amor a Toda Velocidade’’, de George Sidney -, aqui tem de representar. É um filme sobre a unidade da família, mas o ódio, e não o amor, é o motivo dinâmico da narrativa - apesar de todos os esforços para manter-se solidária, a família termina destruída. Siegel considerou Elvis um ótimo ator. Não é uma opinião negligenciável. Anos mais tarde, Siegel ajudou a esculpir a persona de outro dos grandes mitos da tela - Clint Eastwood.
Os outros dois filmes podem não ser tão bons, mas não são menos atraentes. ‘‘Ama-me com Ternura’’ assinalou a estréia do cantor no cinema. Para quem esperava um filme no estilo de ‘‘Sementes da Violência’’ ou ‘‘Juventude Transviada’’, que tinham a ver com a imagem que Elvis projetava na música, nada mais surpreendente. Hollywood colocou-o numa história sobre conflitos familiares desenrolada durante a Guerra Civil americana. Elvis e o irmão (Richard Egan) disputam a bela Debra Paget e ele canta baladas como ‘‘Let Me’’, ‘‘We’re Gonna Move (to a Better Home)’’ e ‘‘Poor Boy’’, sob a direção de Richard D. Webb, que nunca foi muito esperto, mas sabia contar razoavelmente uma história.
‘‘Coração Rebelde’’ mostra Elvis como um matuto do interior, cuja rebeldia o leva a parar no consultório da psiquiatra Hope Lange. Ela descobre que ele tem talento para escrever e estimula a vocação literária, mas boa parte da trama tem a ver com as indecisões de Elvis entre Tuesday Weld e Millie Perkins. O ex-roteirista Phillip Dunne dirige com sua conhecida falta de estilo - embora fosse um dos cineastas mais ambiciosos de Hollywood nos anos 50 -, mas a curiosidade é o script de Clifford Odets, dramaturgo que se destacou por suas tentativas de retratar, no palco e nas telas, o mundo proletário dos Estados Unidos.
Leia mais sobre vídeo na página 8.

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