Jirí Kylían, que diz sempre ter sentido ‘‘uma particular admiração pela dança aborígene, devido à sua beleza, realismo, expressividade e importância na vida da sociedade’’, foi convidado, em 1980, a participar de uma reunião das tribos que restam no norte da Austrália. A linguagem e sobretudo a técnica observadas o fascinaram.
‘‘Experimentei alguns momentos verdadeiramente fabulosos. Uma tarde, puseram-se a dançar enquanto a noite caía. Pensei que iriam continuar apenas por algum tempo na escuridão, no entanto não pararam durante toda a noite. Percebi que extraíam a sua força da energia do grupo. Quanto mais a noite avançava, mais eu pensava que eles iriam parar ou cair de cansaço. E depois, no momento em que os julgava no final das suas forças, eles retomavam com uma nova energia, uma espécie de segunda nascença, muito progressiva. Sentia uma sensação estranha. Algo de novo estava para acontecer. Dei-me, então, conta de que o céu clareava muito docemente, e que surgia no horizonte a primeira luminosidade do alvorecer. Toda a vitalidade deles ressurgia com os primeiros raios de sol. Era um momento cuja emoção se situava no limite do suportável. O que senti foi uma força, de uma tal beleza, que nada os podia deter. A sua dança havia assumido uma dimensão eterna.’’
‘‘Stamping Ground’’ é o resultado dessa experiência e o título está relacionado com a dança, na qual os nativos batiam os pés no chão para demarcar um local sagrado. Sobre si próprio, Kylián diz: ‘‘Não voltarei a fazer uma obra como ‘‘Stamping Ground’’, mas estou certo de que esta experiência marca toda a minha obra’’.

mockup