Rio, 19 (AE) - Na quinta-feira, mais um brasileiro se torna imortal. Nessa data será realizada a eleição para a cadeira número 17 da Academia Brasileira de Letras (ABL), ocupada até dezembro pelo filólogo Antônio Houaiss. Desta vez, o número de candidatos bateu o recorde: 13 inscreveram-se, mas 1 deles, o escritor e presidente da Fundação Nacional de Arte (Funarte), Márcio Souza, retirou a candidatura, alegando falta de tempo para fazer a campanha. Número igual só na eleição do escritor Josué Montello, em 1941, que concorreu com outros 11 e venceu no primeiro escrutínio.
Os eleitores são apenas 38, já que o dramaturgo Dias Gomes morreu antes da eleição. Como decorrem, em média, seis meses entre a morte de um acadêmico e a sua substituição, o quadro da ABL só ficará completo no fim do ano. E quem ficar de fora desta vez tem chance na próxima. Como em toda eleição, há articulações políticas, como contou o imortal Jorge Amado "em Farda, Fardão, Camisola de Dormir", livro sobre a luta dos imortais para não ter entre eles o chefe da polícia do Estado Novo. Os acadêmicos negam a verossimilhança da história.
"É pura ficção e aconteceu em outra época", diz o presidente da ABL, Arnaldo Niskier. "Os acadêmicos não votam influenciados por outros, porque a independência é o principal capital deles dentro desta casa". O estatuto é claro: na quinta-feira seguinte à morte de um acadêmico, ocorre a Sessão da Saudade e sua cadeira é declarada vaga. Nos seis meses seguintes, qualquer pessoa que tenha livro escrito ("ou qualquer coisa assim chamada, ressalta Niskier) pode inscrever-se para o pleito, realizado em quatro meses.
Essa regra leva a candidaturas surpreendentes, como a da cabeleireira transexual Rudy Pinho (José Maria Pinho no registro civil), autora de um livro de contos e de uma autobiografia. "Em geral, a corrida começa com vários candidatos, mas apenas dois ou três vão até o fim", conta Niskier. Desta vez, houve só uma desistência oficial, mas corre à boca pequena na ABL que dois têm chances reais: os embaixadores Afonso Arinos de Melo Franco e Manoel Pio Corrêa. O enciclopedista e tradutor (de Baudelaire, Shakespeare e Camus) Ivan Junqueira pode surpreender
mas há candidatos cujas chances são consideradas reduzidas, até pelos imortais, que, no entanto, escondem suas preferências.
Além de Rudy, estão nesse caso o escritor Diógenes Magalhães, concorrendo pela 23.ª vez, e o astrólogo João Batista do Espírito Santo, conhecido como Batista DObaluayê. O ritual prevê visita dos candidatos aos imortais (com presentes, elogios e agrados menos inocentes, conta Jorge Amado em seu livro). Montello desmente a ficção e explica a tradição. "O novo acadêmico será companheiro e precisamos conhecer suas idéias até para discordar delas com cortesia". O costume já trouxe pequenas complicações. "Houve a visita feita pelo Lima Campos ao Viriato Correia, que estava gripado", lembra Montello. "O doente entendeu a cortesia como sondagem para uma futura vaga".
Nessa eleição, só os três candidatos mais cotados estão visitando os imortais. Alguns telefonaram e outros, nem isso. A escritora Nélida Piñon não vê descortesia na atitude nem vulgarização da casa de Machado de Assis na quantidade de candidatos. "Todo brasileiro são que já publicou um livro sonha com a academia e principalmente os de fora do Rio não têm noção desse ritual", comenta. "Aí, o sonho substitui o ritual".

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