ABL dá lição de democracia
ABL dá lição de democracia
A eleição de Roberto Campos para a Academia Brasileira de Letras significa muito mais do que a simples inclusão de um nome para o rol, talvez já saturado, de imortais. Significa a vitória da democracia num lugar que precisa ter seu prestígio resgatado após alguns episódios que desacreditaram a ABL como instituição. Uma Academia que contém mentes como José Sarney - que ganhou a eleição contra o poetíssimo Mário Quintana - precisava mostrar ao público que está acima do poder. Como, aliás, prescrevem os estatutos, escritos e assinados por ninguém mais ninguém menos que Machado de Assis. É como um libelo pelo pluralismo que Roberto Campos, um homem de direita, a serviço das classes dominantes, assumirá o lugar anteriormente ocupado pelo dramaturgo Dias Gomes, um homem de esquerda, perseguido pela ditadura que Campos ajudou a implantar, quando foi ministro do Planejamento no governo Castelo Branco.
A família de Dias Gomes - quando foi protocolada a intenção de Campos em assumir o lugar do dramaturgo na Academia - protestou, dizendo ser imoral a eleição de um intelectual de direita para a cadeira nº 21. Convém voltar no tempo e analisar a vida dos que já ocuparam, nos mais de cem anos da Academia, esta mesma cadeira. Seu patrono é Joaquim Serra, um abolicionista ferrenho, que entrou para a Academia indicado por José do Patrocínio. Com a morte, em 1888, de Joaquim Serra, sucedeu-o Mário de Alencar, filho de José de Alencar, que, ao que tudo indica, alcançou o posto mais pelo fato de ter sido um dos responsáveis pela lei que concedia à Academia sua sede do que pela sua obra literária. Depois de Mário de Alencar, ocupou a cadeira nº 21 Olegário Mariano, poeta parnasiano e político que integrou a Assembléia Constituinte de 1934. Em 1959, com a morte de Mariano, assume Álvaro Moreyra, um comunista de carteirinha. Moreyra fica apenas 5 anos na Academia. Com sua morte, desta vez é um integralista o eleito. Adonias Filho, além de excelente escritor, foi também um admirador das idéias de Plínio Salgado. Adonias Filho morreu em 1990. Dias Gomes, autor consagrado por seus sucessos no cinema e na televisão, como O Pagador de Promessas e Roque Santeiro, assume o posto do integralista (leia-se extrema direita).
Como o regimento da Academia prevê que os eleitos façam um elogio público a seus antecessores, o que acontecerá no dia da posse de Roberto Campos será o espetáculo de um homem de direita elogiando um homem de esquerda, não por sua opção ideológica, mas por seu reconhecido talento para as letras. Assim como Dias Gomes, quando assumiu a cadeira 21, elogiou Adonias Filho, quedando-se para o fato de ele ter sido integralista, e centrando seu discurso na fantástica obra do escritor. A história se repete quando pensamos em Adonias Filho elogiando o comunista Álvaro Moreyra.
Portanto, alegar imoralidade na eleição de Roberto Campos é contrariar o próprio espírito da Academia, criada por Machado de Assis para ser um centro de idéias, o que prevê, logicamente, pluralismo de idéias.
Roberto Campos é, sim, a voz da direita. Prova disso é sua biografia, a Constituição de 1967 e todos os artigos publicados semanalmente na coluna Lanterna na Popa. Nem por isso há de se deixar embebedar por questões ideológicas. A Academia não foi concebida para ser um rincão de esquerda, como querem muitos. E Roberto Campos cabe muito bem no fardão, que, afinal, o que não é, senão um símbolo da conservação de um poder, o poder da inteligência, que não é, obviamente, privilégio de esquerda ou de direita. (P.P.J.)





