É sob o signo do saudável paradoxo que se inscreve o 54º Festival de Cannes, encerrado há três semanas. E por extensão, o cinema mundial na abertura de seu segundo século. Como ocorre a cada temporada, as imagens globalizadas vão a partir de agora se deixar influenciar por uma infinidade de títulos que desfilaram diversidades, tanto no restrito corredor do cinema-arte como na ampla passarela do filme de exclusivo espectro comercial. O novo e o velho, a descoberta e o retorno à tradição. Novidade pela revelação de atores pouco ou nada conhecidos, tradição com uma evidente retomada de filmes de gênero. Honra às mulheres, antes de mais nada com o belo rosto da atriz Niloufar Pazira - semi-oculto sob o véu do brutal obscurantismo - na pele da jovem jornalista afegã que vai afrontar os horrores e as proibições de seu país, no impressionante ‘‘Kandahar’’ do iraniano Moshen Makhmalbaf. Muito mais sofisticadas, a loura Naomi Watts e a morena Laura Elena Harring invadem a tela de sonhos de ‘‘Mulholland Drive’’, de David Lynch, arrepiam e despertam fantasmas. Entre os homens, saudações ao inglês Ewan McGregor, parceiro da petulante Nicole Kidman em ‘‘Moulin Rouge’’ – entrando em exibição esta semana nos Estados Unidos. Proeza considerável, ele se fez notar entre os fulgurantes movimentos de câmera e as endiabradas sequências de dança.
Mais inquietante e às vezes patético, o americano Billy Bob Thornton, entre Bogart e Montgomery Clift, encarnou o perdedor-paródia de face impávida, no filme-homenagem de Joel Coel, ‘‘The Man Who Wasn’t There’’. Francamente assustador como assassino ensandecido, o estreante italiano Stefano Cassetti transformou-se, pelo acaso de uma viagem a Paris e de um encontro com o diretor Cédric Khan, no psicopata ‘‘Roberto Succo’’, de olhar tão sedutor quanto angustiante. Enfim, discreto porque praticamente invisível um terço do filme, o francês Eric Caravaca é o herói desfigurado do magnífico e doloroso ‘‘La Chambre des Officiers’’, de François Dupeyron.
Por outro lado, e na contra-mão das descobertas, o festival demonstrou ‘‘acomodação’’ ao selecionar de preferência realizações de maior apelo popular e privilegiar filmes de gênero, ainda que entre estes a presença de certas distorções. Entre estilos e intenções radicalmente diferentes, pode-se classificar na categoria ‘‘policial’’ a estetizante experiência dos irmãos Coen, ‘‘The Man Who Wasn’t There’’, que utiliza o preto e branco e uma iluminação milimetricamente estudada para reconstituir a atmosfera do film noir dos anos 40 inspirados no clima proposto pelo escritor James Cain. Quanto à história, ela segue com humor a engrenagem fatal dos melodramas de suspense.
Outro suspense, marcado pela etiqueta realista: ‘‘Robert Succo’’, que retoma o caso verídico de um assassino italiano para reconstituir, em estilo à sangue-frio, seu itinerário homicida. Mais tradicional, ‘‘The Pledge’’, de Sean Penn, utiliza a construção de um thriller para conversar sobre outra coisa, a solidão e o medo de envelhecer que assustam o velho tira aposentado que Jack Nicholson vive com convicção. Muito mais extravagante e imaginativo, e retomando velhos hábitos (ou patologias ), David Lynch disseca a estrutura do pesadelo em forma de suspense em ‘‘Mulholland Drive’’.
No capítulo comédias de costumes, ‘‘Vou Para Casa’’, de Manoel de Oliveira, pode ser visto como uma farsa outonal que conta em pequenas doses a vida cotidiana de um velho ator solitário. Francamente mais alegre, o veterano Jacques Rivette se diverte propondo jogos amorosos à moda de Pirandello em ‘‘Va Savoir’’. E num registro mais onírico mas nem por isso menos divertido, Shoei Imamura tem a audácia de oferecer um conto deliciosamente brejeiro-picante em ‘‘Água Tépida Sob uma Ponte Vermelha’’.
Mais sério, o filme de guerra também encontrou espaço em Cannes, em épocas e locais muito diversos. No surpreendente ‘‘No Man’s Land’’, Danis Tanovic coloca por trás dos dois soldados inimigos, um sérvio e um bósnio, todas as maquinações políticas e mediáticas do conflito na ex-Iugoslávia. Mais didático e com evidentes preocupações formais, o italiano Ermanno Olmi retorna ao século 16 para descrever as transformações na arte da guerra em ‘‘Il Mestiere delli Armi’’. Mais agudo e igualmente sóbrio, François Dupeyron fala sobre faces desfiguradas em ‘‘La Chambre des Officiers’’, homens que perderam as feições durante a primeira guerra, e o que restou deles, física e psicologicamente. E é impossível não mencionar a nova versão prolongada em uma hora do legendário ‘‘Apocalypse Now’’ de Francis Ford Coppola.
Cannes-2001 foi sem dúvida dominado pelos cineastas europeus, que manifestaram um apaixonante dinamismo criador. Partindo do jovem e debutante bósnio Danis Tanovic e chegando ao decano português Manoel de Oliveira., passando pelos grandes nomes da nouvelle vague, pelos italianos Moretti e Olmi e pelo austríaco Michael Haneke, o panorama mostra-se rico, ao mesmo tempo que diverso e - o que é melhor - coerente. Os americanos foram interessantes e agradáveis mas nada extraordinariamente marcantes. Paradoxalmente, os grandes estúdios de Hollywood se mostraram mais inventivos e originais que os independentes, com o cintilante ‘‘Moulin Rouge’’ (Fox) e a irresistível animação ‘‘Shrek’’ (DreamWorks). A Ásia, tão cativante em 2000, desta vez mostrou-se francamente menor. À exceção de Shoei Imamura, seus compatriotas japoneses Kore-Eda (‘‘Distance’’) e Aoyama Shingi (‘‘Desert Moon’’) ficam longe do esperado. Os talentosos taiwaneses Hou Hsiao-Hsien, com uma crônica da juventude perdida (‘‘Millenium Mambo’’), e Tsai Ming-Liang, entrecruzando trajetórias de solidão em ‘‘Et Là-Bas, Quelle Heure Est-il?’’, nada trouxeram de novo. Ao lado de Imamura pode-se colocar Moshen Makhmalbaf e seu ‘‘Kandahar’’, tão festejado pela crítica como o filme da Palma, ‘‘La Stanza del Figlio’’.
Pode-se indagar: para que serve um festival como o de Cannes, o maior e mais influente do mundo? Óbvio: traçar todos os anos uma panorâmica completa e detalhada do cinema mundial. Mas também, e mais importante, - considerando que o cinema é a arte mais diretamente, mais imediatamente ligada ao inconsciente coletivo -, revelar os rumos correntes de sua época, independente do que o júri premiou ou deixou de premiar.

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