Abertura do Festival de Brasília tem cerimônia morna
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quarta-feira, 24 de novembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio, enviado especial 
Brasília, 24 (AE) - Mil e trezentas pessoas, engravatadas ou usando seus modelitos pretos básicos, compareceram na noite de ontem (23) à Sala Villa-Lobos para a abertura do 32.º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme escolhido para abrir o festival (fora de concurso, como de hábito), foi "Encantamento", de José Sette, média-metragem em homenagem ao compositor Camargo Guarnieri. Antes, a Sinfônica do Teatro Nacional executou algumas peças de Guarnieri.
Abertura correta, porém fria, embora as autoridades do Distrito Federal não tenham comparecido como em edições passadas. Compreende-se, pois o governo de Joaquim Roriz (PMDB) se encontra sob fogo cerrado depois que decidiu abolir o projeto da bolsa-escola, criado por seu antecessor, Cristovam Buarque, do PT. Assim, recomendava-se o low profile, mesmo que a platéia fosse composta apenas por convidados, e portanto estivesse sob controle estrito da organização do festival.
O tédio da solenidade foi quebrado apenas por um princípio de incêndio no teatro, logo debelado. Quando os bombeiros chegaram, o fogo já estava extinto. Mesmo assim, foram recebidos com uma boa salva de palmas. Ocorre que, naquele exato momento, a orquestra tocava um dos movimentos da Sinfonia n.º 4 de Guarnieri, justamente dedicada a Brasília.
Amanhã (25) tem novidade na mostra competitiva dos longas. Se o primeiro dia de competição caracterizou-se pelo déjà vu, com os já arquiconhecidos "Por Trás do Pano" e "O Tronco",nesta quinta-feira, no Cine Brasília, serão exibidos dois inéditos: "Cruz e Souza - O Poeta do Desterro", de Sylvio Back, e "A Terceira Morte de Joaquim Bolívar", de Flávio Cândido. Mais uma vez, opõem-se um veterano e um estreante, o que já ocorrera na primeira noite de competição. Back está em seu nono longa; Cândido mostra o seu primeiro.
"Cruz e Souza" é apresentado como um documentário sobre o criador do simbolismo, catarinense e considerado o maior poeta negro do idioma. Diz o diretor que procurou descrever a vida trágica do escritor por meio de "34 estrofes visuais". Em Florianópolis, onde vivia, Cruz e Souza enfrentou preconceitos raciais e isolamento cultural. Mudou-se para o Rio, onde teve fim trágico.
Três décadas - Em "A Terceira Morte de Joaquim Bolívar", o tom é outro. Neste seu primeiro trabalho em longa-metragem, Flávio Cândido procura fazer uma reflexão política sobre o Brasil contemporâneo. Seu personagem, Joaquim Bolívar (um híbrido de Tiradentes e Simon Bolívar), atravessa três décadas da história recente do País numa cidade fictícia chamada Burruchaga. Trinta anos, resumidos em três períodos capitais: 1964, ano do golpe militar; 1979, a anistia; 1999, pá de cal nos sonhos da esquerda.
O cinema fora da tela, os debates, de rigueur em todo festival, começa hoje com uma palestra do diretor Nelson Pereira dos Santos abrindo o Seminário Tele Centro Sul de Cinema e TV. Não poderia haver melhor começo, pois pouca gente pode, com tanta propriedade, falar do métier cinematográfico como Nelson. Na palestra, em tom de descontraída aula magna, o diretor de clássicos como "Vidas Secas" e "Memórias do Cárcere" explicou que seu trabalho consistia em uma decomposição do real vivido com vistas à reconstrução de outra dimensão do real, que seria o espaço fílmico.
Para isso, segundo Nelson, seria recomendável que todo cineasta tivesse noções mínimas de história da arte, porque ele é, também, um compositor de quadros, ainda que sejam quadros em movimento. Ele lembrou que durante a fase do Cinema Novo, da qual ele foi patrono e parte ativa, os diretores inspiravam-se na pintura de Di Cavalcanti, Portinari e Pancetti. Nelson ressaltou também a importância da construção do espaço dramático
que é feita, principalmente, a partir do roteiro. Finalmente, destacou a função dos atores, que dão vida e corpo aos personagens criados pela imaginação do roteirista e do diretor.


