O IRMÃO DO
BETINHO

Arquivo FolhaPara combater a acomodação e a inércia, o cartunista Henfil incomodou o quanto pôde, com talento e humor. Traço ágil, humor sapeca e inteligente, sempre cutucou a onça com vara curta. Filho da dona Maria, pai da Graúna, do Zeferino, do Bode Orelana, do Ubaldo e do Fradim e irmão do Betinho, com muito orgulhoHenrique, ou Henriquinho. Ou Tuneba. O Henfil, filho da dona Maria. Morreu em 1988, de AIDS. Foi uma das primeiras vítimas da ‘‘peste do século’’, como ele chamava a AIDS. Henfil era hemofílico e foi contaminado através de transfusão de sangue. Seus irmãos, Chico Mário e Betinho, também contraíram a maldita. Chico Mário morreu 68 dias depois de Henfil. Até hoje não apareceu nenhum culpado.
Se os bancos de sangue do País fossem controlados na época, Henfil poderia estar presente com seu jeito moleque, debochado, criando muito e metendo o bedelho em tudo, como era seu estilo. Foi um dos cartunistas mais geniais do País. De traço rápido e simples, fazia humor com uma facilidade espantosa. E produziu como nunca. Cerca de 20.000 desenhos em 26 anos de carreira. E também fez cartuns animados, textos diversos, sinopses e roteiros para televisão, cinema e teatro. No início da década de 80 criou, no meio do programa TV Mulher, na Rede Globo, o seu TV Homem, um quadro de humor em que defendia os direitos dos homens. Era produzido em preto e branco, propositadamente mambembe. Henfil não usava figurinos e qualquer pessoa disponível no estúdio era encaixada em cena. Te lembra alguma coisa? Pois é isso mesmo. Foi lá, há mais de uma década que a rapaziada do Casseta e Planeta mamou.
Henfil criou também o Fradim, o frade sádico e sapeca. E foi buscar inspiração no alto da caatinga para fazer a Graúna, o Zeferino e o Bode Orelana, a trinca mais popular dos quadrinhos brasileiros na década de 80. Publicava também, na revista Istoé, as suas ‘‘Cartas pra Mãe’’, textos engraçados e comoventes que tiveram imensa importância na conquista da anistia política no Brasil. Em forma de carta, Henfil discutia com emoção sobre a nossa realidade política. Foi ali, através dos apelos saudosos do cartunista, que o Brasil começou a ouvir falar do ‘‘irmão do Henfil’’, o Betinho, que estava exilado no México.
Em matéria de memória, o Brasil vai mesmo de aeróbica. O passado é queimado como se fosse caloria supérflua. Esse é o motivo da vida de um homem desses ainda não ter virado, livro, novela, documentário, gibi, minissérie, especial nas TVs à cabo. Pensem bem, que beleza: além de vermos aquela cena do leão perseguindo o antílope pela septuagésima terceira vez, teríamos também um programinha sobre o Henfil. Bom, pelo menos livro já temos. Demorou mas saiu. O jornalista Dênis de Moraes escreveu ‘‘O Rebelde do Traço’’, biografia extensa que contando a vida de Henfil em quase 600 páginas. Foi fundo, se meteu em tudo quanto foi lado da fértil existência do cartunista. Tomou depoimentos de amigos e inimigos, coletou bilhetes, fotos, cartas, vídeos, o ‘‘escambau’’, como diria o biografado.
O Paulo Francis odiou, é claro. Figura destacada na biografia - foi anfitrião atencioso, de 73 a 74, durante a estadia do cartunista em Nova York para tratamento da hemofilia - o jornalista implicou até com o circunflexo do nome de Dênis de Moraes. ‘‘O título do livro suburbano-sofisticado, digamos assim, é ‘‘O Rebelde do Traço’’. Dei uma olhada. Um copidesque reduziria a um terço o texto, com proveito para o leitor’’, escreveu Francis em uma de suas últimas colunas aqui na Folha de Londrina. Exagero: faltou concisão a Dênis de Moraes no uso do calhamaço de informações acumuladas. Publicou até telegramas de condolências. Mas o leitor perderia muito se o livro fosse reduzido a um terço.
Francis certamente deve ter se invocado por causa da revelação, em uma das passagens do livro, de seu lado doce e gentil, que escondia com cuidado para não afetar a imagem feroz construída com afinco, e que lhe valeu milhares de leitores. Este seu lado só foi descoberto depois de sua morte. Pois o livro, lançado há seis meses, trazia esta informação, que podia manchar a imagem de mau do jornalista que vergastava os brasileiros todas as semanas sem falta. ‘‘Pois já observei que o danado do Francis, quando chega num lugar, as pessoas se animam. Tem uma vida danada o austríaco e é um dos caras mais solidários aqui’’, revelou o próprio Henfil, que não era de fazer média com ninguém. Certamente isso desagradou bastante o jornalista, cioso de seu trabalho de construção do personagem Paulo Francis.
Henfil viveu 43 anos bem vividos. Com participação ativa em ações que influenciaram decisivamente a vida brasileira. Foi criador do Pasquim e fez parte de sua famosa ‘‘patota’’, que revolucionou a linguagem da imprensa. Esteve na linha de frente da luta pela anistia aos perseguidos pela ditadura militar. Enfim, viveu intensamente, sempre desafinando o coro dos contentes com muito humor e talento. O Rebelde do Traço conseguiu captar o espírito da época. Os anos 70 e 80, a passagem do sufoco para a abertura política, com suas polêmicas, fofocagens, emoções e - também, é claro - muita coragem, está tudo no livro. E fazer esta viagem no tempo na companhia do Henfil é muito melhor. É duca.
Jota




Não sei por que até hoje a gente se espanta com o naufrágio. O Barão de Itararé, já na década de 40, avisava aos navegantes:
CUIDADO! NÃO HÁ BÓIA NO BRASIL!





O PAI DE TODOS
Saul Steinberg nasceu na Romênia em 1914. Modernizador do cartum, elevou o desenho de humor à categoria de arte. Passou por São Paulo na década de 40, quando pediu emprego em uma grande editora e foi recusado. Nos Estados Unidos faz ilustrações e capas para Time, New Yorker, Newsweek, New York Times, além de publicar na Europa e no Japão. Influência fundamental no cartum brasileiro, é pai de todos. Foi tão longe no desenho de humor que atravessou a camada de ozônio e é hoje uma das estrelas da moderna pintura americana.

Clones


O clone Dolly deu um susto nos terráqueos. Mas passado o susto - e passou muito rápido para o meu gosto - todo mundo começou a procurar vantagens no novo processo. Teve até marmanjo de olho em um futuro clone do tchan da Carla Perez, quem sabe disponível em suaves prestações, cheque pré-datado, essas coisas do Real que nos possibilitam, pelo menos até o dia do pagamento, fugir da realidade.
Clonar ou não clonar, eis a questão. E o terrível é que eles vão acabar fazendo. Mas enquanto vamos vivendo esta ficção cada vez mais trash que nos é empurrada goela abaixo como realidade, projetemos as clonagens futuras, delírios factíveis no mercado aberto 24 horas. Afinal, o estupro, ou melhor, o clone é inevitável.

MIKE TYSON
Bem feito para os dois, você dirá logo. Podem fazer a luta do século. Depois a revanche do século. E novamente a luta do século. E assim vai, por séculos. Se fizerem uma centena de clones, talvez dê um Muhamad Ali.
BILL CLINTON
Ele vai gostar. Ganha a presidência dos Estados Unidos pela terceira vez. De primeira-dama continua a Hillary mesmo, que não é mulher de deixar clone ocupar seu lugar.
PAULA JONES
Alguém tem que pegar no pé (êpa!) do presidente.
ROMÁRIO
Pense bem: é a seleção ideal. Romário pega a bola, dribla e passa para Romário, que passa por um e deixa para Romário avançar até o meio de campo e jogar para Romário na ponta direita que avança, dá um toque para Romário que passa pelo zagueiro e lança para a área onde o Romário original espera para fazer o gol.
FHC
Pelo menos três cópias. Uma para negociar com os partidos o tempo inteiro, outra para falar na cabeça dos brasileiros e a terceira para garantir um acordo para que a bancada da Bahia não faça um clone do Antonio Carlos Magalhães.
LULA
Se fizerem uma cópia, os dois divergem. Então o País terá o PT do B.
ROBERTO CARLOS
O Brasil não aguenta. E a Rede Globo terá dificuldade para conseguir patrocínio para o Especial de Páscoa, Especial do Dia das Mães, Especial do Dia dos Pais, Especial do Dia das Crianças, Especial do Dia da Secretária, Especial do Dia das Gordinhas...
EDMUNDO
Para ele sentir na pele como é difícil conviver com o Edmundo.
CAETANO VELOSO
O velho baiano poderá realizar o sonho de ser entrevistado pelo menos por três jornais, seis revistas, quatro emissoras de televisão e oito emissoras de rádio por dia, além das emissoras de TV a cabo, é claro. Todos ao mesmo tempo. E poderá polemizar com a pessoa que ele mais admira no planeta: o Caetano Veloso.
CHICO BUARQUE
É preciso fazer pelo menos um para devolver para a Marieta Severo. Ela merece.
SÉRGIO MOTA
Vamos ser francos, gente. E o FHC vai fazer o quê?
ITAMAR FRANCO
Se um Itamar incomoda muita gente, dois Itamar incomodam muito mais. Se dois Itamar incomodam muita gente... e por aí vai.
PAULO MALUF
Depois da prefeitura de São Paulo, ele poderá colocar clones no governo do Estado, na presidência da República, no Senado, nas Câmaras municipal, estadual e federal. Além de um ministério todo composto por Paulos Malufs.

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