A era das histórias em quadrinhos publicadas em fanzines xerocados vai ficando para trás. Depois de Curitiba, chegou a vez de Londrina entrar no circuito de revistas bacanas. Há dois meses, saiu a Clang!, de Claudio Yuge. Agora, os leitores são apresentados a Abaporu, de Rodrigo Bueno.
O público agradece. Afinal de contas, não há nada mais constrangedor do que folhear páginas borradas ilegíveis de fanzines e ficar mentindo para o autor que leu e gostou, o que é de praxe no meiozinho ‘‘alternativo’’. Rodrigo Bueno lança a revista na próxima quarta-feira, às 20 horas, no Espaço Cultural do Shopping Catuaí. Para a noite, ele programou uma performance com grafitagem ao vivo.
O autor, que cursa Desenho Industrial na Universidade Estadual de Londrina, já lançou a publicação em Presidente Prudente (SP), sua cidade natal, e em São Paulo. Abaporu tem como personagem um índio urbanizado, ‘‘o último da tribo dos komekrú’’. Ele protagoniza histórias curtas, prensado entre as heranças genéticas de suas origens primitivas e a adaptação à sociedade de consumo da grande cidade.
‘‘O Abaporu nasceu como um personagem literário’’ - conta Bueno. ‘‘Mas depois de passar três anos desenvolvendo a história, percebi que a narrativa em prosa ficaria incompatível com ele e, como eu já desenhava, resolvi adaptá-lo para os quadrinhos.’’ O nome do personagem e da revista foi emprestado do famoso quadro pintado por Tarsila do Amaral durante os anos heróicos do modernismo brasileiro, na década de 20.
O quadro, como registra a história, inspirou o escritor Oswald de Andrade a escrever o célebre ‘‘Manifesto Antropofágico’’ cujo postulado apregoava a ‘‘devoração’’ da cultura estrangeira como uma atitude estética renovadora dos trópicos. A tese tinha como matriz o ritual de deglutição dos índios caetés, que acreditavam se fortalecer comendo a carne dos inimigos.
Bueno faz uma releitura amarga da antropofagia. Na revista, Abaporu é um consumidor voraz de produtos importados. Já não preserva a mitologia de seus ancestrais. O autor lembra que para escrever as pequenas histórias da revista foi de grande valia sua visita a uma reserva de índios xavantes no Mato Grosso, com os quais aliás mantém permanente contato.
Ele os conheceu há dois anos, durante um programa de integração da aldeia organizado pela Secretaria de Cultura de Presidente Prudente. O contato coincidiu com suas pesquisas sobre o movimento antropofágico modernista, o que o levou a estudar a cultura indígena e dar uma contribuição à reflexão do tema, especialmente agora quando se festeja os 500 anos do Descobrimento.
O resultado é a revista em quadrinhos que chega agora ao público londrinense. Mas Bueno não pretende se limitar a esse suporte. ‘‘Quero transformá-lo em tira de jornal e desenho animado’’ - anuncia ele. Em São Paulo, a publicação foi lançada em abril na sede da Secretaria Estadual de Cultura acompanhada de uma exposição que incluiu vários painéis com pedaços da HQ e outros desenhos inéditos. A partir do próximo mês, essa mesma mostra começa a percorrer o interior do Estado como uma exposição itinerante.
E é ela que será inaugurada em Londrina na próxima quarta-feira, ficando no Catuaí Shopping até o dia 8 de junho. Na ocasião, a revista estará à venda a R$ 1,99.



Show
A banda local Madera toca hoje em Londrina, no Mecenas Bar (Av. Arthur Thomas, 325). O show começa por volta da 1 hora. O repertório eclético vai de Demônios da Garoa e Doces Bárbaros a Rush e Arnaldo Baptista. Ingressos a R$ 5,00.


Bandas
‘‘Garagem Underground’’ é o nome do show que reúne três bandas de metal e uma de punk-rock no próximo domingo em Londrina, no palco do Nomad Bar (Rua João Pessoa, 50). As escaladas são Dhuend, Silver Blade, Hanging Garden e Picaretas. Ingressos a R$ 3,00.Paulo WolfgangO universitário Rodrigo Bueno lança revista em quadrinhos: histórias curtas e índio como personagemNelson Sato

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