Abandonada no campo de centeio
Quase trinta anos depois, uma das únicas pessoas que teve acesso à vida do escritor americano Jerome D. Salinger, resolveu contar ao mundo tudo o que viu e sentiu ao lado dele. No ano em que o escritor completará 80 anos, a jornalista e escritora Joyce Maynard, 45 anos, dividiu a opinião da crítica e dos fãs com seu livro At Home In The World. A tradução, Abandonada no Campo de Centeio, será lançada nesta segunda-feira, em São Paulo, com a presença da autora. Antes de chegar ao Brasil, Maynard conversou com a reportagem da Folha, em sua casa, na Califórnia.
Joyce Maynard era uma universitária de Yale, no início dos anos 70. Aos 18 anos de idade, se tornou famosa nos Estados Unidos após escrever um artigo sobre a sua geração, publicado na capa do New York Times. A foto e o texto impressionaram o escritor J.D.Salinger, autor de O Apanhador no Campo de Centeio, que desde os anos 60 vivia isolado, sem dar entrevistas, na pequena cidade de Cornish, no interior dos Estados Unidos.
Salinger escreveu uma carta para Joyce, o que deu início a uma estranha história de amor. Com 35 anos de diferença entre os dois, o romance tinha tudo para dar errado, e deu. Salinger gostava de viver recluso, Joyce queria ser famosa. Salinger escondia seus escritos num cofre, Joyce queria aparecer na televisão falando de seus lançamentos.
O caso de Joyce e Salinger, que durou menos de um ano, foi mantido em segredo durante 1/4 de século. A história se tornou uma receita explosiva quando foi aberta ao mundo. Cercada de cuidados judiciais, a publicação do livro Abandonada no Campo de Centeio não pode ser impedida e a obra tornou-se rapidamente um best seller nos Estados Unidos.
Joyce foi acusada pelos críticos literários de invadir a privacidade de um gênio, mas houve quem a defendesse. A crítica ficou dividida, assim como os fãs do escritor. Mas a verdade é que o próprio Salinger detestou o livro, que o revela como um mortal, título bem distante do que ele sempre almejou para si.
Eis aqui os principais trechos da entrevista concedia à Folha via e-mail:
Folha - O que foi mais difícil: escrever Abandonada no Campo de Centeio ou suportar as críticas?
Joyce - Para escrever Abandonada no Campo de Centeio, precisei avaliar as mais sombrias e penosas experiências pelas quais passei, o que foi muito desconfortável, mas também muito libertador, porque uma vez que as avaliei, sabia que elas jamais me perseguiriam novamente. Se você vive a sua vida em terror, com o que pode existir atrás de uma porta trancada...e, finalmente, você abre esta porta...bom, você nunca mais terá pânico daquela sala secreta. É assim que eu me sinto por ter permitido, finalmente, que eu mesma avaliasse as minhas experiências como uma jovem garota, com J.D. Salinger, e tudo o que veio depois. Publicando Abandonada no Campo de Centeio e me abrindo às críticas e aos ataques das pessoas que acreditaram que eu não tinha o direito de falar do ídolo delas, eu conheci uma nova forma de terror. Verdadeiramente, eu nunca temi os ultrajes e condenações das críticas literárias. Eu tive medo da desaprovação e fúria de J.D. Salinger, que tinha mantido silêncio sobre a vida, em todos aqueles anos. Por 25 anos, eu continuei a acreditar (como muitos críticos evidentemente o fazem até hoje) que eu me tornei uma grande escritora por causa deste homem. Porque ele criou uma lei que ninguém poderia falar dele, J.D.Salinger acha que eu deveria dedicar a proteger a sua privacidade e a da nossa história. Quando eu finalmente fui capaz de reconhecer que eu deveria fazer algo por mim mesma, eu me dei a permissão de contar aquela história. É uma importante história, eu acho, não apenas para mim, mas para muitas garotas e mulheres que tenham alguma vez abandonado suas vidas, desejos e sonhos, em troca de um homem. No meu caso, este homem era J.D. Salinger, mas poderia ter sido alguém mais velho, mais forte, mais próspero, mais experiente e mais poderoso. Sua opinião e seu pensamento me importavam mais do que tudo, como qualquer mulher que acredita - como eu acreditei uma vez - que eu era boa somente na medida em que ele me dizia que eu era. Quando eu tinha 18 anos, o homem que eu amava mais do que tudo disse que eu não era boa e eu acreditei nele. Aos 45, minha idade atual, se um homem me diz que eu não sou boa (como J.D. Salinger disse, da forma mais brutal, quando eu fui visitá-lo no ano passado) eu apenas pergunto a ele: quem é você para me dizer isto? Eu acho que este é um grande triunfo que eu adquiri neste estágio da minha vida, quando a minha avaliação de quem eu sou não vem de um homem ou da crítica literária... mas de mim mesma. Eu estou muito orgulhosa deste livro e nenhuma crítica, ultraje ou mesmo o próprio Salinger podem me tirar isto.
Folha - Em que momento você decidiu escrever um livro sobre Salinger?
Joyce - Quando minha filha Audrey fez dezoito anos, a idade que eu tinha quando Salinger entrou em minha vida. Encontrei-me reexaminando minhas experiências juvenis, que eu havia trancado numa caixa forte há muitos anos. Somente desta vez, quando recordei, eu imaginei essa experiência através dos olhos de minha filha, ao invés de me ver sob a proteção de Salinger. Eu vi uma jovem garota, merecendo a proteção e o carinho que foram negadas a ela. Eu escrevi esse livro para minha filha, e também para filhas de outras mães. É a história de uma teenager que se entregou, a um custo muito alto. Escrevendo esse livro, eu fui capaz de recuperar o que havia perdido no passado.
Folha - Você o conhecia antes de receber a carta onde ele falava do seu artigo?
Joyce - Eu conhecia o nome Salinger, mas eu nunca tinha lido um dos seus livros. Ainda assim, seu nome na carta atingiu-me como uma droga poderosa, assim como ele tinha planejado quando assinou a carta.
Folha - Como foi sua vida com Salinger?
Joyce - Minha vida com Salinger era um exercício diário... Salinger se apaixonou pela fotografia de uma jovem (eu) numa revista, e com ela criou um desenho meu, cartas e suas próprias fantasias. Não foi surpresa que uma dia ele tenha se dado conta do real: de que uma garotinha de 18 anos, vivendo em sua casa, dividindo sua cama, poderia deixar de ser uma fantasia e, finalmente, desapontá-lo e desagradá-lo. Eu tentei desesperadamente ser alguém que ele poderia amar e adorar, assim como ele adorou a garota para quem ele escreveu aquelas cartas deslumbrantes. Mas eu nunca fui capaz. Portanto, me senti frustrada como garota e como ser humano.
Folha - Que reação você espera dos críticos brasileiros?
Joyce - Eu tento seguir minha vida, com poucas expectativas prévias. Eu nunca estive no Brasil, então eu não tenho nenhuma idéia de como os brasileiros irão ver a minha história. Mas eu tenho que confessar, há muito tempo eu amo a música e o cinema brasileiro, formei um ponto de vista sobre o seu país como sendo muito sensual e divertido, um lugar onde a comida, o sol, a dança e o amor são fortemente apreciados. Então, talvez, os brasileiros tenham uma forma mais simples e despojada de encarar esta história do que os americanos tiveram. É algo assim: a garota que eu fui com 18 anos de idade queria sambar. O homem que ela amava com 18 anos de idade disse, simplesmente, para que ela se sentasse enquanto a música tocava. Naturalmente, isto foi impossível. Eu acho que os brasileiros podem entender...
Folha - Você tem outros planos no Brasil, além de publicar seu livro?
Joyce - Oh! Sim. Estou indo ao Brasil com meu querido filho de 17 anos, Charlie. As adolescentes do Brasil devem ficar alertas... porque se elas o virem, vão apaixonar-se por ele. Ele é um baterista e amante da música, e por isso nós estamos indo à Bahia também. Além disso, eu fiz amizade com vários cineastas brasileiros - Cacá Diegues e João Emanuel, que conheci em São Francisco - , e espero encontrá-los novamente no Rio de Janeiro. Espero poder conhecer Caetano Veloso, cuja música adoro há muito tempo. Quero também escrever sobre ele para que o público americano o conheça melhor. Aliás, eu gostaria de dizer que, se possível, estou disponível para qualquer ponta em uma das novelas brasileira. Poderia fazer o papel de uma americana visitando o Brasil, ou alguém que tenha perdido a voz. Não que eu tenha perdido a minha. Pelo contrário, recentemente eu a achei. Só que meu português não é muito bom...
Folha - Você tem tido contato com Salinger?
Joyce - Quando decidi escrever o livro, fui vê-lo pela primeira vez em 25 anos - essa visita descrevo no fim do livro. E ele não me pareceu muito feliz em ver-me e nem me convidou para entrar para tomarmos chá com coockies. Na verdade, eu nunca havia visto uma cara tão zangada como a que veio ao meu encontro na porta, mesmo depois de tantos anos. Mas de alguma forma, encarar aquela carranca, que temi por tantos anos, me fez sentir livre. E quando ele me apontou o dedo em riste e acusou-me do pior crime que ele poderia imaginar, disse-me o seu problema, Joyce, é que você ama o mundo. Fui capaz de encará-lo, sem vergonha, e dizer: sim, eu amo o mundo. Qual é o crime nisso?
Folha - Quais são seus próximos projetos profissionais?
Joyce - Eu estou redigindo uma nova novela...que não terá nada a ver com J.D.Salinger.A americana Joyce Maynard lança no Brasil o livro em que lembra a convivência com o recluso escritor americano J. D. Salinger
ReproduçãoO livro conta as histórias de uma adolescente, Joyce, que foi morar com um velho escritor, Salinger, 35 anos mais velhoSimone Mattos





