A voz que não se cala
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de junho de 2002
Nelson Sato<BR>Reportagem Local 
O baú de Plínio Marcos (1935-1999) começa a ser vasculhado. Enquanto a prometida edição completa de sua obra não sai do forno, novas visões sobre o artista chegam ao público a partir de garimpagens em seu espólio.
É o caso do livro A crônica dos que não têm voz (editora Boi Tempo), que surpreende os leitores iluminando a produção em prosa do dramaturgo. De autoria dos jornalistas Javier Arancibia Contreras, Fred Maia e Vinícius Pinheiro, o volume traz um perfil de Plínio mesclando depoimentos extraídos de suas entrevistas, trechos de suas crônicas e testemunhos de amigos e ex-mulheres.
Oferece ainda uma coleção de fotos e, o mais importante, uma seleção de 20 textos pinçados de sua colaboração com a imprensa. Plínio escreveu quase a vida inteira em jornais e revistas. Começou no extinto Última Hora, em 1968, onde assinou uma coluna durante cinco anos. Nas crônicas, ele insistia na temática marginal já explorada em suas peças.
Sua vasta galeria de excluídos trazia mágicos de circo, craques da várzea, porta-bandeiras, pais-de-santo, catadores de lixo, meninos de rua, prostitutas do cais, presidiários, cafetões, valentes do porto, apontadores do bicho, malandros das mesas de bilhar e outros tipos humanos brutalizados pela miséria e ignorados pelos poderes públicos.
Auto-intitulando-se repórter de um tempo mau, Plínio sempre escrevia à mão, de madrugada ou pela manhã. O mais engraçado é que houve uma época em que ele viajava tanto que passou a ditar a crônica pelo telefone, dizendo: Escreve isso aqui, inventa, junta com outra. Sempre acabava saindo alguma história nova conta a atriz Walderez de Barros em uma das passagens do livro. Ela foi casada 20 anos com Plínio.
A exemplo de sua dramaturgia, as curtas narrativas também sofreram com a censura nos anos de chumbo. Plínio atacava os generais da ditadura, maus políticos, as elites culturais e os cartolas do futebol. Sua relação com universo da bola, aliás, é tema de 10 páginas. Como cronista esportivo, Plínio foi um dos primeiros a falar sobre a necessidade de se acabar com a lei do passe e regulamentar a profissão de jogador de futebol como solução para livrar os outrora ídolos da torcida de um futuro incerto.
Ele fazia duras críticas à CBF. Por incomodar os poderosos, foi sucessivamente demitido de grandes órgãos de imprensa. Quando isso não ocorria, tentava-se preservá-lo atribuindo-lhe outras funções dentro da Redação. Nos anos 70, chegou a fazer crítica de cinema. Eu não sou contra o cinema escreveu certa vez. Longe de mim ser contra tão importante veículo de comunicação. Sou contra as discussões estéticas que, nos dias que correm, resultam sempre em puro escapismo de intelectualóide.
A lista de revistas e jornais em que atuou é extensa destacando títulos como Veja, Realidade, Folha de S.Paulo, Placar e República. O Jornal da Orla (de Santos) e a revista Caros Amigos foram os últimos veículos em que colaborou como cronista. Os autores observam que para reconhecer um texto de Plínio Marcos não é necessário ler mais de dois parágrafos. Sua linguagem é tão peculiar quanto seu teatro, e também quanto a sua vida afirmam.
Eu, por essa luz que me ilumina, não fazia nenhuma pesquisa de linguagem. Escrevia como se falava nas cadeias. Como se falava nos puteiros confessou Plínio na crônica Gíria é para quem sabe das coisas, publicada no jornal Última Hora. Neste mesmo matutino, anotou em outra ocasião: Quem me interessa é a patota que se embala e se agarra nas coisas com unhas e dentes. Esses que fuçam nas cocheiras. Que fazem das tripas coração pra discutir uma partida de futebol. E apesar de tudo, agradecem aos seus orixás por estarem vivos. Amam até as últimas consequências. Matam e morrem por um amor contrariado. Porém, nunca recusam o amor, nem curtem a fossa. É o povão.
No livro, episódios pouco conhecidos de sua trajetória são trazidos à tona. Numa passagem, os autores lembra um barraco ocorrido em 1966 durante um programa de auditório exibido pela extinta TV Tupi em que a deputada Conceição da Costa Neves criticava impiedosamente a peça Dois Perdidos Numa Noite Suja acusando Plínio Marcos de comunista.
O autor assistia ao programa e, inconformado, resolveu deslocar-se até à emissora. Subitamente, sem ser barrado, ele apareceu ao vivo diante das câmeras disparando impropérios à detratora: Escuta aqui, sua vaca velha. Como é que tu fala do que não viu, do que não conhece? Tu não viu a peça. Pra fazer a crítica, tu tem que ver. Se não assistir não pode falar.
O rebu só foi aplacado com a promessa no ar de que ele teria o direito de resposta num programa de debate. A essa altura, não se falava de outra coisa nas ruas. No dia do debate, a maioria da platéia era formada por gente de teatro, que aplaudia todas as intervenções de Plínio. Foi o que bastou para estabelecer definitivamente seu nome no cenário nacional. A partir daí, os teatros ficariam apinhados de gente e a classe teatral passaria a apoiá-lo com vigor lutando pela liberação de suas peças proibidas.
A perseguição, porém, continuou por anos a fio transformando-o no autor teatral mais censurado do país. Outro episódio lembrado no volume remete à descoberta de seu talento por Patrícia Galvão, a Pagu, musa dos modernistas de 22. Entusista de primeira hora do então pupilo, ela ficou impressionada ao ler o texto da peça Barrela, o primeiro de Plínio. Chegou a comentar que o texto era mais denso do que o de Nelson Rodrigues. Plínio veio então com a resposta mais simples e encabulada que um jovem artista das ruas poderia dar: Quem é Nelson Rodrigues?.
Anos depois, o próprio Nelson viria a afirmar em diversas oportunidades que Plínio Marcos era o seu sucessor no teatro brasileiro. Os autores do volume ousam acrescentar que Plínio também o sucede na crônica.
Serviço: A Crônica dos que não têm Voz. Editora Boi Tempo (tel. 11/ 3875-7285). Autores: Javier Arancibia Contreras, Fred Maia e Vinícius Pinheiro.


