A voz entra em cena
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de outubro de 1998
Nelson Sato 
Quando se fala em encontro de corais, logo vem à cabeça aquele bando de grupos bem-comportados interpretando canções do arco da velha sob a regência de um maestro avesso a modernidades - é ou não é?
Pois bem, quem for conferir o espetáculo que o grupo-coral carioca Garganta Profunda apresenta hoje no Cine-Teatro Padre José Zanelli, em Ibiporã (a 14 km de Londrina), poderá sair gratificado com uma experiência oposta àquela imagem tão difundida quanto muitas vezes injusta de eventos desse gênero.
Com mais de uma década de atuação combinando música e teatro, o Garganta Profunda é o principal destaque da programação de shows do 5º Encontro de Corais de Ibiporã que começou segunda-feira e se estende até domingo numa promoção da Fundação Cultural daquela cidade. Formado por quatro virtuoses da voz e mais um regente-pianista e crooner eventual, o grupo virou modelo para muitos coros no País desde seu surgimento nos palcos cariocas em 85.
Mostramos que o canto coral também podia ser um espetáculo - diz por telefone o maestro Marcos Leite, de Curitiba, onde dirige há seis anos o departamento vocal do Conservatório de Música Brasileira. Ele conta que a proposta de unir a performance cênica ao canto gerou adeptos e detratores ao longo dos anos. Os primeiros ficaram empolgados não apenas pelos truques de palco criados pelo grupo, como também pela introdução de MPB no repertório.
Colocamos prazer, tesão e alegria nas apresentações - explica ele. Embutimos contemporaneidade ao canto coral tradicional, que tem origem na Igreja e se apresenta quase sempre asséptico, pesado e assexuado. Os conservadores, por sua vez, repeliam as inovações criando a expressão coro cênico para separar o novo estilo dos conjuntos tradicionais. Essa expressão é uma bobagem - continua. Afinal, todo coro é cênico. A diferença é que um se movimenta mais do que o outro.
Atualmente, com a poeira assentada, Marcos Leite nota que a proposta do Garganta Profunda tornou-se uma possibilidade estética para os grupos vocais. Não por acaso, ele é constantemente convidado para difundir suas idéias em cursos e encontros pelo país afora e até no exterior. O grupo, aliás, acaba de retornar de uma excursão de 45 dias pela Itália, onde foi divulgar o novo CD, Deep Rio.
O show de hoje, em Ibiporã, faz parte da turnê promocional do disco. Gravado de forma independente no Rio de Janeiro, o trabalho é o sexto da carreira do grupo. Além das habituais releituras de canções marcantes da música brasileira, inclui três composições inéditas: Bela, uma homenagem ao Rio de Janeiro assinada por Marcos Leite em parceria com Sérgio Natureza; A Culpa é do Saci, de Edu Kneip; e Noite Ocidental, de Nestor de Hollanda e Luiz Guilherme.
Luiz Guilherme já fez parte do Garganta Profunda, do qual saiu junto com o cantor Paulinho Moska para fundar a banda pop Inimigos do Rei, já extinta. A formação original do Garganta, convém lembrar, contava com mais de 20 integrantes, plantel com o qual chegou a gravar dois LPs. A redução do número de pessoas está relacionada com a profissionalização do grupo - explica o maestro.
No começo, o grupo era amador e reunia médicos, advogados, engenheiros etc. Com o tempo, fomos sendo solicitados para shows e muitos componentes deixaram de viajar por causa de seus compromissos. A formação atual traz, além de Marcos Leite, Pedro Lima, Regina Lucatto, Celso Branco e Kátia Lemos. A direção cênica dos espetáculos é do ator Pedro Paulo Rangel. Para a apresentação de hoje, o grupo dividiu o repertório em três partes: uma repleta de sambas, canções e serestas evocativas do Rio de Janeiro; outra voltada para ritmos nordestinos; e o último bloco dedicado a Tom Jobim.
O show começa às 20 horas com ingressos a R$ 2,00.


