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terça-feira, 24 de novembro de 1998
Carla França Agência Estado 
Já se foi o tempo em que a dublagem era negócio de poucos no Brasil. Desde a primeira produção dublada, O Drama de Nora Hale, da série Ford na TV, em setembro de 1957, muita coisa mudou. De quatro empresas no ramo no início dos anos 60 (Herbert Richers, Arte Industrial, Ibrason e Cinecastro), hoje há 30, cada vez mais procuradas por emissoras, publicitários e distribuidoras de filmes. Estima-se que só a TV paga provocou um crescimento de 30% na demanda por dublagem, desde 1990.
Herbert Richers é a pioneira no ramo, existe há mais de 40 anos e detém 50% do mercado, o que inclui a versão em português da maior parte da programação estrangeira da Globo. A HR dubla cerca de 150 horas por mês e tem 150 profissionais contratados, seis estúdios e equipamento totalmente digitalizado.
Nos anos 50, a empresa já era um respeitável laboratório fotográfico, produtor de chanchadas e marcos do cinema, como Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos.
O paulista Herbert Richers aceitou o conselho de Walt Disney, de quem foi cameraman no Rio, e investiu num mercado inexplorado. Disney me deu a sugestão, pois a TV era em preto-e-branco e sem definição: não dava para acompanhar as legendas, diz Herbert Richards, de 78 anos, que até hoje dá expediente na empresa, na Tijuca, zona norte do Rio.
Hoje, as empresas tradicionais ainda controlam o filé mignon, mas enfrentam um mercado cada vez mais competitivo, que emprega 400 dubladores no eixo Rio-São Paulo. A grande disputa tem sido com dubladores que montaram sua empresa e tende a crescer com a TV paga, cujos canais começam a dublar as próprias produções.
O dublador Marco Ribeiro, por exemplo, criou há quatro anos a Audio News, no Rio, e emprega 30 profissionais, sem contrato fixo. O negócio anda bem. Sem dúvida, é um mercado emergente, diz Alan Marc Stoll, diretor da Alamo, de São Paulo. A Alamo foi fundada pelo seu pai, o inglês Michael Stoll, há 26 anos. Localizada no bairro de Vila Madalena, em São Paulo, detém 10% da produção dublada no País. A empresa dubla 100 horas/mês e tem seis estúdios, por onde circulam 100 dubladores, na época das vacas gordas.
Segundo Cláudia de Ávila, gerente de Operações da HBO, a tendência dos canais pagos é investir na dublagem. É o caminho para popularizar a TV paga, explica. A HBO já possui um departamento especializado em fazer traduções, legendagem e dublagem por conta própria.
Apesar das mudanças no panorama do mercado, o trabalho de dublagem segue as mesmas regras. Um filme com 90 minutos leva 15 horas para ser dublado a um custo de R$ 5 mil a R$ 6 mil, o pacote com tradução, elenco e mixagem. Dublar custa seis vezes mais do que legendar, avalia o diretor da Herbert Richers, Gil Monteaux.
A profissão não é regulamentada e ainda há quem pense que não passa de quebra-galho. Os dubladores lutam para ver seus nomes nos créditos, ganhar direito autoral quando um programa é reprisado e limitar em três o número de personagens a ser dublados numa produção por um só ator (o que, no jargão dos dubladores, se chama dobras).
A renda de um dublador varia de acordo com o volume de trabalho. Posso ganhar R$ 500 ou R$ 5 mil por mês, diz Ricardo Schnetzer, que tem salário fixo de R$ 300 na Herbert Richers. Até uma greve no ano passado, que durou 45 dias, o piso salarial era de R$ 16 por hora. Agora, é de R$ 39.


