Não há necessidade de se exceder nos adjetivos. ‘‘Olhos de Farol’’ é um bom disco. Mesmo com uma concepção estética nada inovadora, no todo é um bom disco. Vem envolto com um vibrante auê pelo fato de Ney Matogrosso voltar a desbundar em grande estilo em seu habitat natural - o pop - depois de uma década e tanto em que deitou olhos e canto nas releituras - sofisticadas, algumas demasiadamente condimentadas em conceitos que beiravam a chatice - do créme de la créme da MPB. ‘‘Olhos de Farol’’ faz o percurso inverso - eis aí um dos grandes baratos do disco - ao buscar alguns compositores praticamente invisíveis aos olhos da mídia e, consequentemente inaudíveis ao grande público que supostamente se interessa, quando toma conhecimento, por tudo ou quase tudo o que se canta, toca e/ou compõe à margem da música brasileira.
Pois muito bem, chegou a hora dessa gente marginalizada mostrar seu valor através de um intérprete de imponente visibilidade. Que por passear por diversos estilos durante mais de 25 anos de carreira tem autonomia para gravar o que bem lhe der na telha - mesmo que ainda paire, em ‘‘Olhos de Farol’’, uma certa impressão de Ney estar praticando ‘‘assistencialismo’’ musical aos mais necessitados.
Que seja. O fato relevante é que Ney, dignamente, traz à tona composições de uns e outros oprimidos fonograficamente ou que rarissimamente ganham frias linhas nos cadernos ‘‘bes’’ da vida.
E são os poucos conhecidos, no entanto, que fazem de ‘‘Olhos de Farol’’ um disco que precisa ser ouvido. São esses desconhecidos, com ou sem aspas, que conseguem ofuscar compositores paparicados que deram a Ney certas fragilidades - Rita e seu filho Beto Lee, por exemplo, ofereceram de bandeja a salsinha ‘‘Vira Lata de Raça’’, recheada de rimas paupérrimas encobertas por uma melodia mixuruca,
Ainda na categoria ‘‘me-explica-o-que-Ney-viu-nisso?’’ a medalha de ouro vai para ‘‘Gotas de Tempor Puro’’ de um desinspirado Paulinho Moska. Até mesmo ‘‘Poema’’ (carta de Cazuza musicada por Frejat decepciona um cadinho por não fazer jus ao nome apesar de vir colcada numa carismática balada romântica. Coube a Ronaldo Bastos salvar a confraria dos elementares, junto com o ‘‘quem-é-ele-mesmo?’’ Flávio Henrique, ao apresentar a belíssima e delicada ‘‘Olhos de Farol’’, que dá nome ao disco. De eriçar pêlos.
‘‘Novamente’’ (Fred Martins-Alexandre Lemos) é outra faixa gratificante. Gratificante não, linda!! Entretanto a grande revelação do disco é o compositor Pedro Luís. Seja num pseudo mas delicioso rap (‘‘Miséria no Japão) ou num baião moderninho com jeito de embolada (‘‘Fazê o Quê?’’), há de se notar um hábil melodista e um interessante letrista. Essas duas maravilhas mais ‘‘A Cara do Brasil’’ (Celso Viáfora-Vicente Barreto), que não fossem os créditos nominais poderia ser respeitosamente confundida como mais uma boa sacada de Guinga e Aldir Blanc, formam a santíssima trindade do disco.
Resumo do pop: Ney por pouco, por pouquíssimo mesmo, talvez por uma ainda não descoberta miopia, quase acerta em cheio no seu rentrée no mundo pop. Mas como tiro que chega próximo ao alvo também arranca ‘‘ohs’’. ‘‘Olhos de Farol’’ , no geral, causa uma boníssima impressão.(A.M.J.)

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