Pato rouco. Era assim que o paulistano Edvaldo Santana era chamado pelos colegas de infância. Graças a um calo nas cordas vocais, ele colecionou apelidos. Vizinho de Antônio Marcos, que fazia sucesso com o vozeirão, Santana dissimulava o desejo de ser cantor para evitar o sarro.
Mas o calo que o incomodava na infância se tornou uma de suas principais características como compositor e cantor. Mesclando ritmos como blues e samba, Edvaldo Santana desenvolveu - com sua rouquidão - um estilo personalizado. O músico está novamente no estúdio, preparando o álbum chamado provisoriamente de ‘‘Covarde’’ - ele já lançou, em carreira solo, ‘‘Lobo Solitário’’, em 1993, e ‘‘Tá Assustado?’’, em 1996.
Em ‘‘Covarde’’, Edvaldo Santana amplifica seu liquidificador rítmico ao lado de músicos que o acompanham há anos: Luís Waack na guitarra, Eduardo Batistela na bateria, Mintcho Garramone no baixo e Ricardo Garcia na percussão, além de Ricardo Cristaldi e Daniel Szafran, nos teclados, e do trombonista Bocato.
No disco, o compositor vai apresentar parcerias com Itamar Assumpção, em ‘‘Blues Caboclo’’; Arnaldo Antunes, em ‘‘Beija-Flor’’; e o poeta Akira, em ‘‘Canção Pequena para Ninar Menino Morto’’.
Como o grupo já está calejado, Edvaldo Santana optou por valorizar os músicos, excluindo qualquer recurso eletrônico. ‘‘Estou gravando um rap com violão. As fusões do blues com a música brasileira também estão mais evidentes. É interessante misturar o texto urbano do dia-a-dia que o blues tem com a melancolia brasileira’’, comenta Santana, em entrevista realizada por telefone.
A produção do disco ficou por conta do compositor e do guitarrista Luís Waack, que acompanha Edvaldo Santana há oito anos. ‘‘Estamos gravando há quase um mês, acho que até setembro o disco estará nas lojas’’, completa.
A tendência de fundir ritmos começou a se configurar quando uma amiga do compositor, que recebia catálogos de discos de blues e jazz, passou a mostrar-lhe o material: ‘‘Eu sempre achei que a música brasileira e do mundo se misturariam, já percebia isso em Jackson do Pandeiro, na mistura do choro com jazz, na Bossa Nova. Por intermédio dessa amiga tomei contato com Charles Mingus, Charlie Parker, Robert Johnson, John Lee Hooker. Eu morava no subúrbio, e lá não chegavam essas coisas’’.
Filho de nordestinos, Edvaldo Santana viveu cercado por música. Seu pai tocava violão em um grupo de choro que frequentava sua casa. ‘‘Filho de nordestino já tem essa coisa do baião, minha mãe cantava e meu pai ouvia muito Pixinguinha e Waldir Azevedo. No rádio eu escutei tudo o que rolava, de Roberto Carlos a Beatles’’, recorda-se.
Desse caldeirão musical surgiu a idéia de ser cantor, mas o pai queria que Edvaldo fosse advogado. O rapaz arrumou emprego em uma fábrica, ao mesmo tempo em que tocava nas rodas de violão algumas composições próprias, como ‘‘Chico da Silva’’, feita para um pintor primitivista cearense.
Na escola, Edvaldo Santana começou a participar de festivais, e chegou a ganhar alguns. ‘‘Isso me incentivou, achei que fazia alguma coisa boa’’, ressalta. Com o tempo, Santana montou a banda Caaxió, e resolveu procurar uma gravadora. Como o nome era muito estranho, os músicos adotaram Matéria Prima.
O grupo fez sucesso com ‘‘Maria Gasolina’’, e teve direito a lançamento com videoclipe no ‘‘Fantástico’’. ‘‘Era uma brincadeira com levada de rock. Estávamos fazendo o que a gravadora queria, eu não estava satisfeito’’, revela.
O Matéria Prima acabou se afastando do meio comercial, fundando em São Miguel Paulista uma espécie de pólo cultural frequentado por poetas como Glauco Mattoso e músicos como Paulo Moura. ‘‘Nessa época fomos tocar em Londrina, onde existia um problema entre a reitoria e o movimento estudantil. Foi aí que eu conheci o poeta Ademir Assunção’’, acentua.
A fase durou até 1986, quando o compositor mudou-se para o Rio de Janeiro. Lá, Edvaldo Santana acompanhou desde apresentações de orquestras sinfônicas a shows de jazz. ‘‘Foi a grande guinada rítmica e musical, que me motivou a compor mais. Quando voltei para São Paulo, após dois anos, iniciei carreira solo.’’ O gosto pela poesia levou Edvaldo Santana a se aproximar de Arnaldo Antunes, Paulo Leminski e Haroldo de Campos. Foi quando gravou ‘‘Lobo Solitário’’.
‘‘Eu já fazia misturas rítmicas em São Paulo. Gil fazia isso, Jackson do Pandeiro já havia feito. Nossa geração ficava um pouco à mercê dos outros, eu dizia que devíamos fazer diferente. Então me utilizei do rap e do blues, que eram pouco trabalhados por aqui. A arte é dinâmica, e me interessa mexer nesta estrutura. Hoje é normal um cara cantar música brasileira com pegada de blues, mas tempos atrás era visto como charminho’’, confessa Edvaldo Santana.
Para o músico, tem muita gente fazendo tecno sem ter suingue: ‘‘Não tenho nada contra, mas estou na terra do samba, que é mais sofisticado. Por que eu tenho que entrar nessa? Eles é que têm que entrar na minha. Por isso usamos pandeiro, percussão. Tocamos todas as faixas do novo disco até o final, sem recursos eletrônicos’’. O show de lançamento de ‘‘Covarde’’ ainda não está definido, mas Edvaldo Santana garantiu que o Paraná será incluído no roteiro de apresentações.

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