A voz do morro, sim senhor
Nelson Sato
De Londrina
Bezerra da Silva, o embaixador da favela, nunca foi tão festejado. Depois de ser redescoberto pela comunidade pop, que o paparicou em shows e discos ao longo desta década, o sujeito agora virou tema de livro.
Suas aventuras e desventuras, muitas das quais até Deus duvidaria, rendem as páginas mais empolgantes de Bezerra da Silva Produto do Morro Trajetória e Obra de um Sambista que não é Santo. O lançamento é da Jorge Zahar. O livro, de autoria da antropóloga Letícia C. R. Vianna, é uma mistura de biografia e reflexão sobre música popular urbana.
Além de reunir episódios da vida do artista, analisa as músicas que ele canta e dedica um capítulo para comparar sua trajetória com a de Luiz Gonzaga. Na capa do volume, Bezerra aparece crucificado em uma cruz de madeira com uma arma em cada mão, duas outras na cintura e um cinteiro de munição pendurado no ombro.
No alto de seus 71 anos, ele continua afiado. Simultaneamente à publicação do livro, acaba de lançar um CD gravado ao vivo. É o 25º álbum de sua carreira, iniciada com dois discos de coco (um gênero musical nordestino) e estabelecida depois no samba de partido alto. Bezerra é um atualizador da tradição da malandragem seguindo a escola de Wilson Batista, Ismael Silva, Moreira da Silva e Dicró.
É identificado também ao sambandido, linhagem que privilegia nas letras o universo dos contraventores. Famoso por gravar músicas de compositores anônimos, ele dá voz a camelôs, mecânicos, marinheiros, policiais, pedreiros, biscateiros e desempregados. No começo da carreira, circulava pelas favelas para gravar o que era tocado nas tendas e biroscas.
Coletava canções para compor seu repertório e ficou conhecido nos morros como o homem do gravador escreve Letícia. Quando foi morar num apartamento alugado no bairro de Botafogo, onde vive até hoje, passou a reunir compositores em sua casa para um mocotó às terças-feiras. A festa começava de manhã e entrava pela noite.
Baixava gente de todo lugar para cantar e mostrar seus sambas para o anfitrião. O ritual criou problemas no condomínio. Atualmente diz a autora ele ainda promove reuniões esporádicas e ouve muitas fitas que mandam em busca de composições e com o intuito de promover os desconhecidos. Há um ano, a revista Showbizz trouxe uma bela reportagem sobre os parceiros obscuros do partideiro.
O livro passa a limpo vários episódios pitorescos, muitos deles dramáticos e hoje relembrados pelo próprio Bezerra com bom humor. Relata, por exemplo, como sua vocação musical se manifestou na infância e foi reprimida pela família. Conta como entrou e saiu da Marinha Mercante, depois de sofrer cantadas de um oficial (Perseguido, acabou sendo preso e expulso em uma solenidade, na qual desacatou todo mundo: Eu gritava bem alto, na Marinha Mercante só tem veado!).
Revela como foi atrás do pai que havia abandonado a família antes de seu nascimento e foi rejeitado por ele. Traz à tona sua relação com as mulheres, a coragem para enfrentar os bandidos de favelas e as 21 ocasiões em que passeou de camburão (Fui campeão de averiguações, conheço todas as delegacias da zona sul, fui em cana nelas todas!, diz ele num trecho).
Várias páginas são dedicadas aos anos em que Bezerra ganhava a vida como operário da construção civil (quando dormia na obra) e como músico na Rádio Clube do Brasil e posteriormente na Orquestra da Rede Globo. Narra também os momentos em que ele começou a se infiltrar no universo dos sambistas, projetar-se como intérprete, gravar discos e entrar em atritos com as gravadoras.
Uma das passagens mais intrigantes é a que relata os três anos em que pastou na sarjeta. Foi na década de 50, quando já tinha trocado Recife pelo Rio de Janeiro, bem antes de se tornar um intérprete famoso. Desempregado, andava para cima e para baixo em Copacabana como um mendigo, sem ter o que comer ou onde dormir.
Chegou a forçar uma prisão fingindo-se de louco diante de guardas de trânsito com o objetivo de garantir uma refeição na delegacia. O desespero era tanto que um dia resolveu se matar tomando formicida. Segundo a autora, Bezerra conta que na última hora foi salvo por seu guia Ogum, que fez o copo de veneno voar de sua mão.
Mas isso ele só foi saber mais tarde, depois de frequentar um terreiro de umbanda, onde ficaria quatro anos e se tornaria médium. No capítulo dedicado a Luiz Gonzaga, Letícia compara a trajetória do Rei do Baião com a de Bezerra da Silva assinalando que enquanto o primeiro reivindicava a autoria das composições, o segundo sempre se contentou com a condição de intérprete.
Ser porta-voz dos excluídos, sublinha a autora, é o que fundamenta sua personalidade como artista: Embora a singularidade de Luiz Gonzaga também esteja diretamente relacionada à identidade coletiva de nordestino, ele não fala pelos nordestinos, mas sobre a cultura nordestina para nordestinos e não-nordestinos. Gonzaga cria a partir do Nordeste, Bezerra da Silva reproduz a voz do morro.
O livro, que é uma adaptação da tese de doutorado da autora pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro, inclui no final um glossário com expressões de sambistas.Livro que analisa a vida e a obra de Bezerra da Silva chega ao público mostrando facetas inusitadas do papa da malandragem
ReproduçãoBezerra da Silva: aos 71 anos ele continua afiado e identificado com o sambandidoReproduçãoLivro é mistura de biografia e reflexão antropológica da música popular





