A voz do morro está calada
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Toda vez que a mãe voltava do hospício, onde o marido estava internado, perguntava à criança:
O Zé ficou quietinho?
Foi assim que surgiu o apelido, uma abreviação da pergunta: Zé Kéti. O K substituiu o Q quando virou moda durante o governo JK. Portelense que gostava da Mangueira, Zé Kéti foi um dos nomes mais representativos do samba de morro. Tornou-se inspiração quando a bossa nova rumou para a música de protesto. Contestou o regime militar e alcançou as elites como um dos protagonistas do show Opinião.
Seu legado deixou pelo menos uma composição gravada na memória popular: Máscara Negra, feita com Pereira Matos. A música, em marcha carnavalesca, traz os versos: Tanto riso, oh quanta alegria/ Mais de mil palhaços no salão. São poucos os que a desconhecem.
O compositor passou mais de 20 dias internado com problemas renais, até que, no dia 14, aos 78 anos, não resistiu. Além de um grande músico, foi-se uma parte importante da história do samba o período em que o gênero tocado nos morros chegou à classe média alta reclamando da marginalização, acentuando os disparates sociais à beira da fase mais grave da ditadura.
Zé Kéti desnudou a miséria, ajudando a desmascarar o romantismo ingênuo e preconceituoso com que o morro era visto. Em sambas como Acender as Velas, revelava: Acender as velas/ Já é profissão/ Quando não tem samba/ Tem desilusão/ (...) O doutor chegou tarde demais/ Porque no morro/ Não tem automóvel pra subir/ Não tem telefone pra chamar/ E não tem beleza pra se ver/ E a gente morre sem querer morrer.
A visão simples e contundente era o que parte da bossa nova buscava no início dos anos 60. Alguns compositores se cansaram da temática barquinho-amorzinho-uisquinho e partiram à procura de um conteúdo social mais crítico, representado por uma música mais autêntica.
Na busca, toparam com Cartola, Zé Kéti e Nelson Cavaquinho. Em uma dessas reuniões, no apartamento de Nara Leão, uma gafe tornou-se clássica. Os sambistas foram recebidos com pinga enquanto outros convidados tomavam uísque. Nelson Cavaquinho foi o primeiro a alertar o equívoco: Nós só tomamos pinga porque não temos dinheiro para o uísque.
Zé Kéti era neto e filho de músicos, e costumava dizer que seu pai, Josué Vale de Jesus, enlouquecera por causa de um feitiço que uma ex-namorada havia feito. O fato é que o pai do compositor passou a ter visões e chegou a perder um pé num acidente de bonde. Josué era sambista e chorão. Mas ganhava a vida como marinheiro foi um dos participantes da Revolta da Chibata em 1910, contra os castigos corporais impostos à tripulação dos navios.
Nascido no Rio de Janeiro, Zé Kéti frequentou o furor das escolas de samba nos períodos áureos e conheceu a fundo a boêmia carioca. Gravou pela primeira vez em 1946, mas o sucesso veio em 1952 com Amor Passageiro, na voz de Linda Batista. Depois de A Voz do Morro incluída na trilha sonora de Rio, 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, Zé Kéti se recolheu na Portela.
Nessa época, ia com frequência ao Zicartola, restaurante de Cartola e Dona Zica. Em 1962 juntou um time de feras, que incluía Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Anescarzinho e outros, no conjunto A Voz do Morro. O grupo gravou três discos históricos o primeiro deles, Roda de Samba, de 1964, foi relançado em CD numa edição difícil de ser encontrada.
O Zicartola era frequentado também por Oduvaldo Viana Filho, Ferreira Gullar e Armando Costa. O trio, em um bate-papo, bolou um espetáculo com show musical, retratando a realidade popular imigrantes nordestinos e favelados com conotações sociopolíticas.
Em 1964, ano do golpe, estreava Opinião, peça que reunia um sambista do morro, um nordestino e uma garota da zona sul carioca respectivamente Zé Kéti, João do Vale e Nara Leão. Os três usavam a mesma argumentação sobre as discrepâncias sociais. Um ultraje para a ditadura incipiente e um sucesso para quem buscava novidade.
O sambista continuou compondo pelos anos 70 a fora, já sem tanta notoriedade. Na década de 80 foi quase esquecido. Os anos 90 também estavam passando em branco, até que Zé Renato lançou em 1996 um disco em homenagem a Zé Kéti. O compositor recebeu, em 1998, o Prêmio Sharp.
Reconhecido em seu estilo sóbrio, cantando com serenidade sambas que mergulhavam em descasos sociais, na boêmia e nos intrincados sentimentos da pobreza, Zé Kéti não ficou rico. Fez sucesso mas ganhou pouco. Era bom compositor, mas mal recebia direitos autorais. Morreu não muito diferente do pobretão que, no início de carreira, disputava no palitinho o café para aguentar a peregrinação nos corredores das rádios, divulgando sua obra.
OPINIÃO
(Zé Kéti)
Podem me prender
Podem me bater
Podem até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião
Daqui do morro
Eu não saio, não
Se não tem água
Eu furo um poço
Se não tem carne
Eu compro um osso
E ponho na sopa
E deixa andar
Fale de mim quem quiser falar
Aqui eu não pago aluguel
Se eu morrer amanhã, seu doutor
Estou pertinho do céu.
ACENDER AS VELAS
(Zé Kéti)
Acender as velas
Já é profissão
Quando não tem samba
Tem desilusão
É mais um coração
Que deixa de bater
Um anjo vai pro céu
Deus me perdoe
Mas vou dizer
O doutor chegou tarde demais
Porque no morro
Não tem automóvel pra subir
Não tem telefone pra chamar
E não tem beleza pra se ver
E a gente morre sem querer morrer.No último domingo, o País perdeu um grande compositor e parte da história do samba com a morte de Zé Kéti
Arquivo FolhaZé Kéti no show Opinião que estreou no fim de 1964: o sambista começa a participar de filmes e cantar em faculdadesArquivo FolhaO compositor das marchas carnavalescas, que ficaram na memória do povo, e cantava samba de raiz morreu pobre





