A voz do Corpo
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de setembro de 2002
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Há vinte e cinco anos, o Corpo começava a ganhar formas robustas. Uma certa Maria, hoje saudada por meio mundo, até então tinha uma vida feita apenas de solfejos. Atualmente, o Corpo se prolonga em admiráveis movimentos e é uma das companhias brasileiras de dança contemporânea mais conceituadas inclusive no exterior. Maria, duas vezes Maria, também ganhou corpo, ou melhor letra, e se transmutou em ícone feminino da MPB. E foi essa graças a essa mulher, cheia de graça e gana sempre, que o grupo mineiro Corpo iniciava sua trajetória de sucesso. Tudo embalado pela música de Milton Nascimento e texto de Fernando Brant.
Era verão de 1976. O bailado ''Maria Maria'', estreava no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Milton (que ainda usava o inseparável boné) e Fernando se uniam ao diretor e coreógrafo Oscar Araiz. Quem viu, viu! Quem não não viu, poderá ouvir a trilha sonora original da performance lançada pelo selo Nascimento, recém-inaugurado por Milton Nascimento. O disco duplo traz ainda outra trilha, a do balé ''Último Trem'' (1980), que conta a história da estrada de ferro Bahia-Minas desativada pelo governo militar, também feita exclusivamente ao Grupo Corpo.
Além do valor histórico, muitas curiosidades cercam o lançamento dos dois álbuns. ''Maria Maria'', por exemplo, aparece apenas em versão instrumental, só com vocalises, bem como outras canções hoje conhecidas do repertório de Milton Nascimento e de outros intérpretes. Textos incisivos, marcantes, assinados por Fernando Brant são especiarias raras. Músicos imensos participam das duas trilhas, entre eles Naná Vasconcelos, Wagner Tiso, Luiz Avelar, Paulo Moura, Tavito, João Donato, Toninho Horta, Nelson Ângelo, Danilo Caymmi, só para citar alguns.
A recuperação das trilhas foi um caso à parte. Gravadas em suporte analógico, as faixas foram remasterizadas em 1994, em Londres. A montagem definitiva aconteceu graças a cessão das fitas originais pelo grupo Corpo, de onde foram extraídos os textos e sons percussivos. Em estúdio, apenas um sino, que no balé ''Último Trem'' era tocado ao vivo, precisou ser badalado. ''Levamos o sino para o estúdio e tocamos. Ficou jóia!'', comenta Milton Nascimento, bem- humorado. Ele lembra que a finalização aconteceu no primeiro semestre deste ano, no Rio de Janeiro, com ajuda de Tom Capone.
Fato raro: a voz de Fernando Brant declamando um dos mais belos textos, ''Último Trem''. Milton divide faixas e textos com grandes intérpretes Nana Caymmi, Zezé Motta, Clementina de Jesus, Beto Guedes e Fafá de Belém (em início de carreira, com sua voz brejeira e anasalada). Faixas inéditas se mesclam a canções agora conhecidas e diluídas em discos do cantor e compositor mineiro ''Milagre dos Peixes'', ''Geraes'' e ''Clube da Esquina 2''.
Uma das preciosidades de ''Maria Maria'', é a versão integral de ''Maria Solidária'' em duelo admirável de Nana e Fafá. Aliás, a intérprete paraense foi quem dos discos mais se beneficiou para proveito próprio o hit ''Sedução'' , ''Maria Solidária'' (em versão compacta), ''Raça'' e ''Bicho Homem'', regravadas em seus iniciais (e antológicos) discos. Lembrada na voz de Simone, ''Encontros e Despedidas'' foi, na trilha original, destinada a Zezé Motta.
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