A VOZ DISSONANTE DA BAHIA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de fevereiro de 2001
Nelson Sato De Londrina 
Poucos ouviram seu disco de estréia, Tantas Coisas, que lhe rendeu o prêmio de revelação da temporada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Três anos depois, a cantora baiana Rebeca Matta pula do estúdio com o segundo álbum Garota Boas vão pro Céu, Garotas Más vão pra Qualquer Lugar, que chega às lojas pelo selo Lua Discos.
O CD mantém a improvável fusão de rock, eletrônica e MPB (no caso, subvertida) distanciando a cantora de qualquer traço que a vincule à seara das divas que periodicamente se sucedem no reino da axé-music. Aos 33 anos, ela assina metade das composições do disco. Nas letras enfatiza o universo feminino, o que se evidencia já no título do trabalho.
Ah, se você deixar / Eu chego tão perto / Longe dos medos de sempre / Para desmanchar / o que há / de líquido e sólido / em mim / em você / entre nós dois canta ela em Seja Lá o que For, com sua voz entrecortada por camadas de efeitos eletrônicos e guitarras distorcidas. As batidas lentas e atmosféricas do trip hop, presentes em boa parte de seu pimeiro álbum, retormam na faixa Pra que Sofrer?, pontuada por vozes sobrepostas, versos recitados e uma frase recorrente (Aquele rosto que me sorria).
Mais rock que o anterior, o novo disco traz a colaboração fundamental do guitarrista Peu Souza, enteado de Galvão dos Novos Baianos. O trabalho foi produzido por André T. e inclui participação especial do paulista Loop B, desbravador da música eletrônica e industrial no país e que comparece aqui tocando instrumentos inusitados como bala de canhão e tanque de gasolina.
O disco traz também a inserção de três vinhetas entoadas pela menina Lana Yuri e extraídas de gravações do grupo de mantras da Federação de Yôga da Bahia e da Universidade Internacional de Yôga. O repertório é repleto de belas canções, a começar pela faixa-título, que alterna passagens suaves e agressivas impondo-se como a mais radiofônica de todas. Outro destaque é a balada ácida Um Beijo no Escuro, na qual a combinação de candura vocal e microfonias remete a bandas do pop inglês.
O CD é dedicado a Tom Zé, cuja composição Xique-Xique (Parabelo) feita em parceria com José Miguel Wisnik mereceu uma releitura no novo repertório. Rebeca a dividiu em duas partes na primeira, ela canta a letra inteira sem acompanhamento; na segunda, funde a rítmica nordestina com guitarras pesadas. Já no disco de estréia, a cantora havia revisitado a obra do compositor regravando a música O Amor é Velho, Menina.
Ainda naquele trabalho, faria revisões de Elizeth Cardoso (Barracão), Chico Buarque (O Meu Amor), Milton Nascimento (Nada Será Como Antes) e Lulu Santos (Como Uma Onda). Rebeca parece avessa a reverências respeitosas. Busca soluções inesperadas ao submeter as gravações originais a mudanças nos arranjos e à colisão de gêneros. Em Ronco da Cuíca, de João Bosco e Aldir Blanc, mistura guitarras e berimbaus.
Em Na Cadência do Samba, de Ataulfo Alves (em parceria com Paulo Gesta e Matilde Alves), costura surdo, bandolim, teclados e percussão eletrônica. Envereda ainda ainda em versões para A Mentira (de Manu Chao), A Cidade (Chico Science) e Mal Necessário (Mauro Kwitko). Morando em Salvador, longe do famoso eixo Rio-SP, a cantora permanece uma artista deslocada no mercado fonográfico.
Faz um trabalho sem concessões, seja aos ritmos locais dominantes na Bahia ou às tendências mais gerais que habitam as FMs e programas de auditório da TV. Mais gente precisa ouví-la.
Garotas Boas vão pro Céu, Garotas Más vão pra Qualquer Lugar. Lançamento da Lua Discos (www.luadiscos.com.br). Tel. (11) 533-2229.


