A voz de Maria
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de outubro de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
Arquivo FolhaMaria Bethânia: Âmbar tem 41 canções e 11 poemas de Fernando PessoaÀs vésperas do Dia da Criança os adultos é que ficarão felizes. Ao menos os fãs de Maria Bethânia, que poderão assistir ao show Âmbar - Imitação da Vida, no Guairão, em Curitiba. A cantora faz uma única apresentação hoje, rememorando com este trabalho os espetáculos que a marcaram no passado.
Âmbar não é o túnel do tempo, mas passeia na trilha de Rosa dos Ventos e Drama - Terceiro Ato, em que um toque de grandiloquência casa-se com a sensibilidade de músicas e poemas de Fernando Pessoa.
Na época, os eternos descontentes reclamavam dos discos ao vivo da cantora, e dos textos que julgavam em excesso. O tempo provou com quem estava a arte e Bethânia já declarou que pensa em reeditar o mágico Rosa dos Ventos. Por sinal Âmbar - Imitação da Vida tem a direção do mesmo diretor desses momentos históricos, Fauzi Arap.
De antes e agoraÉ um show caudaloso esse que Bethânia traz. São 41 canções, 11 poemas de Fernando Pessoa. O roteiro inclui desde sucessos marcados por sua voz, como o Grito de Alerta, de Gonzaguinha e Sonho Impossível (versão da música de Chaplin) a clássicos como Chão de Estrelas, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa, a Luz Vermelha, de Carlinhos Brown e Invocação, de Chico César.
Outra de suas marcas, a de trazer para o palco músicas defendidas por grandes intérpretes do passado - em um de seus discos falou da admiração pela extraordinária Dalva de Oliveira - está mais que presente no espetáculo. Mensagem, que Isaurinha Garcia cantou pelo resto de sua vida, é um desses exemplos.
Bethânia emenda os versos da canção (quando o carteiro chegou/ e o seu nome gritou/ com uma carta na mão...) a um poema de Pessoa (aqui na pele do heterônimo Álvaro de Campos): Todas as cartas de amor são ridículas.
Co-autoresTrês semanas antes da estréia o diretor Fauzi Arap escreveu um depoimento para o programa de Âmbar, que estreou há um ano, no Metropolitan, no Rio de Janeiro. Ele conta, nessas linhas, que a parceria entre eles tem muito de co-autoria, mais do que direção, como é natural que seja num caso assim.
O entendimento que os move é daqueles que muitas vezes não precisam de palavras. Se em nossos primeiros trabalhos caminhamos lado a lado na busca de uma forma de expressão que a refletisse inteira, hoje em dia a desenvoltura com que Bethânia passeia por esse estilo precisa apenas de um ligeiro apoio para ganhar forma, escreveu.
Fauzi Arap completa dizendo que, como Bethânia encarna em si mesma a essência, síntese de tudo que pretende dizer, resta ao diretor acompanhá-la e ajudá-la a organizar tudo para que o resultado final seja um espelho fiel de sua alma.
FaniquitosÂmbar estreou em meio a expectativa e certeza de sucesso, na noite carioca, que levou uma multidão ao Metropolitan. O Jornal do Brasil publicou matéria de Lula Branco Martins contando como foi a noite. A estrela tinha o público aos seus pés, absoluta.
Numa certa hora (os fãs) chegaram a ovacionar um gesto simples de Bethânia. Ela jogou os cabelos para trás, prendeu as madeixas durante poucos segundos - e bastou isso para emocionar meio Metropolitan, de Zizi Possi a Glória Perez, de Sérgio Cabral, o pai, a Bennedita da Silva (na mesma mesa), de Aracy Balabanian a Lúcia Veríssimo, de Cláudia Abreu a Tônia Carrero.
A colunista Danuza Leão também reportou o clima de euforia e paixão: Foi um delírio: a cada vez que passava a mão no cabelo, um grito; a cada poema de Fernando Pessoa, um desmaio; a cada música, uma tentativa de suicídio. Curitiba que se prepare.
Âmbar - Imitação da Vida - show de Maria Bethânia. Direção de Fauzi Arap. Hoje, no Guairão, às 21h. Ingressos: R$ 40,00 (platéia), R$ 35,00 (primeiro balcão), R$ 30,00 (segundo balcão).


