Quando dava sossego aos pomares da redondeza, Elizeth Cardoso costumava cantar com o pai, no quintal. O violonista Jaime Moreira Cardoso, durão que na adolescência da filha ameaçaria seus namorados, acompanhava. ‘‘Elizeth e violões sempre se deram bem demais’’, anotaria Chico Buarque na capa do álbum póstumo ‘‘Todo o Sentimento – Elizeth Cardoso & Rafael Rabello’’. A relação estava no sangue.
Chico Buarque também a considerou ‘‘mãe de todas as cantoras’’. Elizeth Cardoso marcou época na música brasileira como intérprete de caráter, imposto com naturalidade em um senso rítmico/harmônico que a permitia dominar a melodia, incutindo, algumas vezes, modificações. Considerada por muitos a melhor cantora brasileira, Elizeth Cardoso morreu exatamente há dez anos, no dia 7 de maio de 1990.
É fácil compreender a profundidade musical de Elizeth. Além da influência do pai violonista, ela morou na mesma casa que o tio Pedro, seresteiro e chorão. Com o tio, Elizeth se aproximou de figuras mitológicas como Pixinguinha e João da Baiana. Também frequentou os redutos baianos do Rio de Janeiro, como a famosa casa da Tia Ciata – onde, dizem, o samba carioca nasceu.
O samba se desenrolava no quintal das casas baianas, enquanto o choro era executado na sala, segundo informações de Sérgio Cabral em ‘‘Elisete Cardoso – Uma Vida’’, biografia lançada pela Lumiar Editora. Cabral prefere grafar Elisete. Mas a cantora assinou também Elizette e Elizete, além do Elizeth que frequenta a maior parte de seus discos.
O contato com a fonte do samba seria carregado por toda a carreira, evitando concessão a modismos. Em depoimento a Ronaldo Bôscoli, publicado em 1979 na ‘‘Manchete’’, a cantora garantia: ‘‘(...) Aconselho a todos os que seguem seu ofício: não se deixem prostituir por um imediatismo. Tá certo, hoje o samba voltou à crista, mas quando ele deixou de ser moda eu fiquei na minha. E acho que, por causa disso, criei credibilidade diante do público. As modas vão passando, meu filho, e só o que fica é o que está na massa do nosso sangue.’’
Para se ter uma idéia, voltando ao livro de Sérgio Cabral, o aniversário de 16 anos de Elizeth contou com presenças como Pixinguinha, João da Baiana, Jacob do Bandolim e Dilermando Reis. Elizeth absorveu até o sumo desse caldo musical, e ainda ganhou influências de Marília Batista e Aracy de Almeida.
Em meio aos mestres do samba e do choro, Elizeth desenvolveu o timbre e uma grande extensão. Ao mesmo tempo que alcançava agudos com facilidade, encarava ‘‘O Ébrio’’ no mesmo tom de Vicente Celestino.
O sotaque carioca, não exagerado, mantinha uma afinação indiscutível. Elizeth Cardoso dosava a voz como um instrumento, medindo a potência, adequando o volume, transitando por graves, médios e agudos. No fraseado, gostava de esticar notas, enquanto sua percepção de harmonia e ritmo permitia solar com acompanhamentos variados e navegar por outros estilos, além do samba.
Não é à toa que no histórico álbum ‘‘Elizeth Cardoso – Zimbo Trio – Jacob do Bandolim’’, gravado pelo Museu da Imagem e do Som em 1968, com renda revertida para o próprio museu, Elizeth aparece à vontade tanto no choro de Jacob do Bandolim quanto no samba-jazz do Zimbo Trio. Ela foi a grande estrela da noite, valorizando a interpretação de ‘‘Barracão’’ (Luiz Antonio/Oldemar Magalhães) e quase, literalmente, provocando um enfarte no emocionado Jacob.
Elizeth Cardoso foi uma intérprete que enriqueceu obras, tornando-se uma espécie de co-autora, repudiando o porto seguro da passividade. Essa postura se aliava a uma inteligência musical embutida em divagações melódicas – evidentes, por exemplo, em ‘‘Mulata Assanhada’’ (Ataulfo Alves), do disco citado acima.
Em 16 de julho, Elizeth Moreira Cardoso completaria 80 anos de nascimento, ocorrido perto do morro da Mangueira. Ainda criança, chegou a cantar no rancho Kananga do Japão e morou na Praça Onze, berço dos desfiles carnavalescos.
Pobre, fez de tudo: foi cabeleireira, manicure e bailarina de dancings cariocas – recebia por música para dançar com rapazes desacompanhados. A situação foi complicando e a cantora caiu onde os artistas sempre iam buscar uns trocados: a Praça Tiradentes. Levada para o rádio por Jacob do Bandolim, Elizeth descobriu que precisava de shows para engordar o orçamento. A Praça Tiradentes era uma espécie de submundo cheio de malandros, onde alguns deles ofereciam participações em espetáculos a preços variados.
Cantou em cinemas, clubes e circos, foi crooner de orquestras e, em 1951, já mostrava o rosto na TV Tupi do Rio de Janeiro. Na mesma época, participou de alguns filmes e apresentou-se no Uruguai. Em 1958, gravou o álbum ‘‘Canção do Amor Demais’’, repleto de músicas de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, com acompanhamento de João Gilberto. Muita gente considera o disco um marco inicial da bossa nova. Sua carreira prosseguiu com alto padrão de qualidade e grande reconhecimento.
Com um apetite voraz, Elizeth começou a enfrentar problemas estomacais na década de 80. O diagnóstico do câncer não foi revelado à cantora, que sofreu uma operação sob pretexto de tratamento de uma úlcera. Em 1989, submeteu-se a outra cirurgia. Só então soube a verdade. Seu último trabalho, ‘‘Ary Amoroso’’, dedicado a canções de Ary Barroso, rendeu-lhe o Prêmio Sharp de Melhor Cantora.
No início de 90, sofreu nova intervenção cirúrgica. Enfartada por causa da anestesia geral, Elizeth foi mantida em estado grave na UTI. Durante uma visita da amiga Mary Martins, Elizeth surpreendeu ao cantar com uma voz sofrível: ‘‘Preciso não dormir/ Até se consumar/ O tempo/ Da gente.’’ A música ‘‘Todo o Sentimento’’ (Chico Buarque/Cristóvão Bastos) ganhou importância profissional e pessoal, e acompanhou seus últimos dias. Em maio, após internamento em uma clínica, Elizeth Cardoso calou-se.

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