Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
É extremamente comum ouvir pessoas afirmarem que o homem utiliza apenas uma pequena parte das potencialidades de seu cérebro. Por outro lado, é difícil ouvir alguém dizer que o homem utiliza apenas uma pequena parte das potencialidades de sua voz.
O cantor Demetrio Stratos (1945 - 1979) foi um dos raros artistas que assumiram a tarefa de levar ao limite as capacidades da voz humana. Seus experimentos vocais nunca deixaram os ouvintes indiferentes. Com extrema radicalidade, elevou suas experiências sonoras à categoria puramente existencial. Capaz de emitir quatro sons simultâneos, viveu sob a máxima rebelde da arte contemporânea: ‘‘A arte é um jogo onde se arrisca a vida.’’
Demetrio Stratos, filho de pais gregos ortodoxos, nasceu no Egito em 1945. Cresceu entre Alexandria e Atenas. Com 17 anos de idade transferiu-se para Milão, Itália, para cursar a faculdade de Arquitetura. No final dos anos 60, sob o nascimento da contracultura italiana e conturbações políticas, passou a dedicar-se à música como vocalista de bandas de rock underground. Em 1972, juntamente com outros universitários (Victor Busnello, Giulio Capiozzo, Yan Djivas, Patrizio Fariselli e Gianpaolo Tofani), fundou o grupo Area (Internacional Popular Group). O rock progressivo do Area entraria para a história do rock italiano.
A música do Area pode ser comparada à música desenvolvida pelos Mutantes no Brasil. A estrutura do rock incorporando outros gêneros musicais pautados pela experimentação está presente nas duas bandas.
Vocalista do Area, Demetrio Stratos era um incansável pesquisador. Nos shows da banda, que reuniam milhares de pessoas, executava improvisos vocais que levavam a platéia ao delírio, bem como ao estranhamento. A partir de 1974 passou a trabalhar com as vanguardas eruditas da Europa. Dois anos depois, em 1976, abandonou o grupo Area para se dedicar ao estudo da voz e desenvolver um trabalho solo em que a pesquisa estivesse em primeiro lugar. Neste mesmo ano lança seu primeiro disco solo, ‘‘Metrodora’’.
Seu trabalho ganhou repercussão nos Estados Unidos e Europa. Foi convidado, em 1978, por John Cage para participar de um concerto em Nova York. Fez parte do espetáculo ‘‘Event’’ de Merce Cunningham criado por Jasper Johns, John Cage e Andy Wahrol.
Em suas pesquisas, aprofundou o estudo das diplofonias, triplofonias e quadrifonias (sons sobrepostos, harmônicos), uma tradição dos monges tibetanos. Seus dons vocais foram registrados em espectografias e estudados por médicos foniatras. Além de conseguir produzir um agudo de sete mil hertz, emitia sons semelhantes aos realizados apenas por sintetizadores.
Suas composições mostram que não estava meramente interessado em demonstrar sua capacidade fisiológica muito além do normal, mas a coerência de seu pensamento estético nos sons que produzia.
Sua morte prematura, aos 34 anos de idade, interrompeu seus projetos mais radicais. Os motivos de seu falecimento são controvertidos e pouco explicados. Há teorias que dizem que ele teria emitidos sons que o autodestruíram, que teria se matado com esses sons (o som teria tanto o poder de construir como o de destruir). Em suas pesquisas em atingir os limites da voz humana, Demetrio Stratos teria produzido mantras negativos, destrutivos. Trabalhando obsessivamente em superar os limites da voz humana, teria se destruído.
Permaneceu internado em hospitais italianos por dois meses, definhando sem motivo aparente. Transferido para um hospital de Nova York, faleceu vítima de displasia medular em junho de 1979. Neste mesmo dia acontecia em Milão um grande evento com a apresentação de mais de 100 músicos num show para arrecadar fundos para o tratamento de Stratos. Com mais de 60 mil espectadores, o evento entrou para a história dos movimentos jovens italianos.
Após 20 anos de sua morte, chega às livrarias o primeiro livro analisando o fenômeno Demetrio Stratos. O trabalho é da pesquisadora paranaense Janete El Haouli, professora da Universidade Estadual de Londrina e diretora do Núcleo de Música Contemporânea com sede em Londrina. O livro é baseado em tese de mestrado apresentada na Universidade de São Paulo em 1994. Publicado na Itália em setembro último pela Editora Auditorium, ‘‘Demetrio Stratos: Alla Ricerca Della Voce-Musica’’ ganha sua edição brasileira em março pela Editora AnnaBlume. A obra será acompanhada de um CD com 13 músicas interpretadas por Stratos, duas delas ao lado do grupo Area, as doze restantes em gravações solo.
Apesar da grande quantidade de material de estudo gravado, Demetrio deixou apenas três discos solos. Uma produção pequena mas totalmente pautada pela experimentação, pela radicalidade. Para Janete El Haouli, a musicalidade de Stratos dependia de um jogo que arriscasse a vida. Sua trajetória, ainda pouco estudada, revela um percurso perigoso tendendo ao limite de uma desintegração tanto musical quanto existencial. A seguir, em entrevista à Folha, a pesquisadora fala sobre a arte de Demetrio.
Qual o assunto central de ‘‘Demetrio Stratos: Em Busca da Voz-Música’’?
Abordo a voz enquanto música. Demetrio trabalhava com a voz desvinculada da palavra. Comecei a desenvolver meu trabalho a partir desse conceito, procurando compreender o significado da voz, da voz-música. Não a voz na música, mas a voz enquanto som, enquanto música, a voz como música. A voz é música, seja gritada, gemida ou sussurrada, sem a língua, sem a palavra.
Ele afirmava que ‘‘a voz é hoje, na música, um canal de transmissão que não transmite mais nada’’. O que queria dizer com isso?
Ele faz uma relação da voz enquanto mercadoria, na música e na comunicação do cotidiano. Uma voz que passou a ser mercantilizada - ele usa mercadoria nesse sentido. Uma voz que não expressa, não diz mais tudo aquilo que ela pode dizer.
A voz, no mundo atual, estaria sendo utilizada apenas de maneira utilitária?
Justamente. E nós perdemos a capacidade outra de se comunicar pela voz a não ser através de palavras que estão carregadas de sentidos culturais. Ele não nega o uso da palavra. Está falando justamente de uma recuperação desses sentidos outros do instrumento chamado voz. Sua grande pergunta era ‘‘o que é a voz?’’, ‘‘o que pode uma voz?’’ Até agora ninguém respondeu essas questões, o que é a voz sem sua materialidade. Ele fazia uma crítica severa ao canto lírico que considerava um canto aprisionado. Falava muito da perda do nosso som primodial, do nosso som primeiro. Para ele, na infância, a criança organiza o som, joga com sua garganta, depois perde o som para organizar a palavra.
Demetrio Stratos tinha dons vocais fora do comum. Como ele desenvolveu sua técnica?
De maneira absolutamente autodidata. Ele procurou saber como os monges conseguiam realizar sons múltiplos, tanto a nível fisiológico quanto simbólico. Ele era um estudioso de etnomusicologia e psicanálise.
Ouvir a música de Demetrio é entrar num mundo estranho, exige paciência e atenção. Pode-se dizer que sua música é difícil de ser assimilada?
Num dos capítulos do livro, que eu chamo de ‘‘escuta sacrificial’’, defendo a tese de que para ouvir Demetrio Stratos é preciso entrar no mundo dele, realizar uma escuta ritualística. Talvez nós não estejamos preparados para entrar nesse universo dele, da compreensão que ele está colocando. Quando você ouve alguma coisa, ouve de acordo com o seu universo de referência. Isso é bom, mas me parece que, para ouvir Demetrio é necessário uma escuta ritualística, porque senão a aparente simplicidade pode ser tornar banalidade. Isso porque, na música xamânica por exemplo, também ritualística, a repetição é um elemento importante para você entrar em transe. Eu defendo esta escuta para Demétrio. É na perspectiva do ruído que sua voz atua. Por isso acho que existe um obstáculo a ser transposto pelos nossos próprios ouvidos para ouvi-lo. A tendência é criar uma barreira com relação ao que nos é estranho.
Mas sua música realmente parece estranha, um tipo de som que não encontramos no dia-a-dia.
Mas segundo nosso amigo Freud, estranho é aquilo que não nos é familiar. E Demetrio discute por que isso não nos é familiar se já foi familiar um dia. Eu defendo Demetrio como ‘‘fármaco’’, o que cura, o que mata.
Por quê?
Porque é um pouco minha posição diante da música, como eu me relaciono com os sons. Numa relação é necessário as interação entre as partes - estou vendo o som como o outro. E nós, na escuta desse outro, temos que nos posicionar se queremos ou não interagir com esse som. De repente não queremos escutar o outro porque não interessa o discurso do outro.
Qual seria o verdadeiro motivo de tanto estranhamento?
Eu acredito que elas estranham o Demetrio porque elas se estranham. Elas estranham a si mesmas. O estranhamento que as pessoas têm de sua música, ou de outros tipos de música, está nelas mesmas e não no objeto. Nós temos que nos perguntar ‘‘por que estou estranhando isso?’’ Devo ter feito umas quinze palestras sobre Demetrio e todas eu abri com sua música. As pessoas ficam incomodadas. Ficam com ódio de mim ou me amam. Algumas pessoas saem no meio das palestras porque não suportam aquilo que estão escutando, não vêem sentido naquilo.
Mas é um direito das pessoas se recusarem a ouvir aquilo que não gostam.
Claro é um direito. Mas ao meu ver voltamos naquela questão já colocada: por que as pessoas estranham, por que as pessoas se recusam a entrar no universo do outro para saber quem ele é? Quando você está amarrado, preso a seus próprios conceitos em relação ao outro acontece o estranhamento. Se você está disposto a entender o outro, a aceitar o outro, você se abre para receber e acontece a transformação. Se você prefere achar que aquilo é estranho, que não interessa, você se fecha. Eu acredito numa alteração de consciência a partir do momento que o sujeito se presta a isso, mas é muito mais cômodo a gente ficar como a gente está, é mais cômodo a sociedade ficar do jeito que está. Curiosamente as pessoas que mais se identificam com Demetrio são as crianças e os velhos.Pesquisadora londrinense lança na Itália o primeiro livro sobre Demetrio Stratos, o músico que rompeu os limites da voz humana
Roberto Masotti/ReproduçãoDemetrio Stratos viveu sob a máxima extrema: ‘‘A arte é um jogo onde se arrisca a vida’’ReproduçãoCapa do livro ‘‘Demetrio Stratos - Alla Ricerca Della Voce-Musica’’ e o CD que acompanha a publicação: registros raros sobre um músico perturbadorArquivo FolhaJanete El Haouli: ‘‘Para ouvir Demetrio é preciso entrar no mundo dele’’

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