A volta por cima
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Mariana Trigo<br> TV Press 
Do alto de seu 1,90 m de altura, Márcio Garcia está sempre com uma postura impecável, o que contrasta com seu jeito mais malandro, de quem cresceu nas areias do Rio praticando esportes. Com um arrastado sotaque carioca, chega a ser difícil imaginar o ator na pele de um indiano que sofre preconceitos ao se apaixonar pela sonhadora Maya, de Juliana Paes. Em ''Caminho das Índias'', Márcio interpreta Bahuan, um ''intocável'' - pessoa repelida pela religião hindu e malvista aos olhos de todas as castas na Índia.
Em seu primeiro protagonista, o ator de 39 anos não disfarça o orgulho. Depois de passar cinco anos na Record, onde apresentou o programa de variedades ''O Melhor do Brasil'', e ter vivido alguns personagens, como um policial em ''Vidas Opostas'', Márcio retornou para a Globo. Assinou um contrato de seis anos como ator e apresentador. ''Estou num dos melhores momentos da minha carreira'', garante.
O cotidiano de gravação de novela é muito mais trabalhoso que o de apresentador ?
Sem dúvida. Mas esse protagonista me motivou. Tive a oportunidade de me esvaziar de todos os meus preconceitos, tudo que estava formatado pela minha educação e meus hábitos ao longo da vida. O Bahuan não pertence ao meu mundo e é absolutamente diferente de todos os meus outros personagens. Absorvi essa cultura para entender um pouco desse universo tão complexo, as castas, a religião milenar. No Ocidente, estamos acostumados a conviver entre judeus, ateus, umbandistas, católicos. Lá a fé de todos está relacionada com a família, a cultura e o negócio. Não existe esse individualismo do Ocidente.
O que você usou para compor esse personagem?
Tudo que pude, como aulas de dança, culinária, vestimentas... Aprendi que os indianos só comem com a mão direita e só se limpam com a esquerda, sem guardanapos. Nunca havia estado na Índia. Foi lá que comecei de fato a entender como são as pessoas, toda aquela miséria. Eles têm mais de mil deuses, é tudo muito espiritual, tudo tem a ver com o carma deles. Eles não almejam nada dos outros, você não vê inveja. Foi uma grande lição perceber a conformidade deles.
Essa conformidade é justamente o que seu personagem não tem. Mesmo como ''intocável'', ele luta pelo amor de uma mulher de uma casta superior. Como isso vai ser mostrado?
É um Romeu e Julieta diferente. O fato de ele ser um ''intocável'', o faz um cara excluído, um pária. Lá as castas são herdadas. Vem de geração em geração. Por isso, o Bahuan duvida se tem o direito de se envolver com a Maya. Ele vai viver entre a cruz e a espada. Na Índia, dizem que o casamento é uma panela de água fria com fogo baixo. Com o tempo, vai aquecendo e se transformando. Na nossa cultura, a gente casa com a panela fervendo e, com o tempo, vai esfriando. Mas o amor dele é avassalador e dramático porque a relação entre os dois pode significar uma desgraça para ambas as famílias durante gerações. Isso deve gerar muita polêmica para nós, ocidentais.
Que costumes mais impressionaram você?
As mulheres não andam sozinhas. Tem sempre alguém: uma tia, uma prima, para realmente conter os impulsos, as possibilidades de elas se envolverem com os caras. Não existe beijo, nem no rosto. Quando as brasileiras chegam lá e dão um beijo no rosto de um cara e o abraçam, eles acham que elas querem casar. O cara já fica tenso, começa a subir pelas paredes (risos). Na Índia não existe uma relação apenas entre um homem e uma mulher. É sempre a família. Tem também a questão do dote. Os pais perguntam para os caras interessados na filha: ''O que você me oferece para que minha filha faça parte da sua família?''. Negociam casa, dinheiro, carro. Não é interesse diante dos olhos orientais. É uma prática milenar. Não é fácil eliminar tudo que aprendi para vestir uma personagem desses.
Você tem pensado como vai ser o tipo de programa que quer apresentar na Globo?
Penso em fazer uma produção diferente, que tenha um cunho social, mas que não caia num lugar comum. Sei que isso parece utópico. Não quero só trabalhar com entretenimento, mas ajudar na formação das pessoas, passar informação, incentivar a cidadania, dar exemplos bacanas. Tenho de usar o veículo que tenho nas mãos e a imagem que construí ao longo desses anos para alguma coisa útil.


