A volta por cima
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de janeiro de 1997
Ana Cristina Ioselli 
TV Press
Luiza Dantas/Carta Z NotíciasPatrícia França: O corte do meus cabelos virou um acontecimento
Patrícia França cansou de posar de boa moça. Quando aceitou o convite do diretor Wolf Maya para interpretar a Madalena, de Salsa e Merengue, foi seduzida pela transformação que a heroína iria sofrer num determinado momento da história. Aos 25 anos de idade, conta nos dedos os dias que faltam para se livrar do estigma da boazinha monocórdia - perfil ao qual sua imagem, vira e mexe, é associada. Heroína é sinônimo de sangue, suor e lágrimas. Não há como fugir disso, lamenta.
Na trama, a mudança acontece gradativamente, a partir do momento em que Madalena ganha fama como tapeceira e torna-se uma empresária da arte. Com a guinada profissional da personagem, o visual de Patrícia França, por sua vez, será incrementado. A começar pelas gigantescas madeixas, que sofrerão a ação da tesoura, ficando na altura dos ombros e ganhando cachos alongados. Pelo menos esta foi a última decisão da direção, até agora.
Patrícia se diverte. O corte do meus cabelos virou um acontecimento, surpreende-se. Ela diz que não tem nenhum problema em cortá-los, desde que tenha uma boa razão, como é o caso. Por trás da trama de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, Patrícia França, a atriz, está adorando a mudança.
Os longos cabelos lhe conferem um estereótipo perfeito para interpretar heroínas tão boazinhas quanto sofredoras. Fico com cara de mãe dágua. Deve ser isso, debocha. Não é à toa que Patrícia fala reiteradamente, e de forma sempre entusiasmada, da Lucilene, de O Fim do Mundo, sua última personagem na tevê.
Lucilene era uma sensual cantora de boate que envolvia-se no assassinato do filho do prefeito juntamente com o namorado, vivido por Marcos Winter. Ela era cheia de charme, molecona mesmo. Isso é pouco explorado em mim e é o que mais tenho para explorar, reclama.
Nesta hora, Patrícia França começa a se expor e a postura extremamente séria e distante desfaz-se lentamente. Pernambucana de Recife, ela preocupa-se com a imagem. Ou melhor, faz questão de se explicar. Dizem que depois que fiquei famosa fiquei metida. Mas sempre fui caseira, quieta, isso só ficou mais em evidência, esclarece.
O começo Ela tinha 19 anos quando deixou o Recife para trás para ficar famosa em todo Brasil. A Globo estava fazendo testes em vários Estados para encontrar a intérprete perfeita para a Tereza Batista, de Jorge Amado. Foi quando um ator recifense, que estava no Rio, comentou sobre Patrícia com produtores da Globo, que se apressaram em procurá-la. Ela não lembra o nome do conterrâneo, nem faz questão de lembrar, frisando que passou por teste.
Quando fez o teste, estava certa de que não passaria, mas ainda assim estava feliz por achar que um dia seria chamada para uma ponta qualquer. Não demorou e Patrícia soube que seria a própria Tereza Batista.
Hoje, recordando o episódio, especula o que teria acontecido caso não a tivessem descoberto. Acho que iriam fazer testes na minha cidade de qualquer jeito, mas teria ficado com preguiça de ir, brinca.
Depois do sucesso-relâmpago com Tereza Batista, Patrícia fez uma participação em Renascer, como a Maria Santa, aquela que morreu de parto e vivia aparecendo nas visões do José Inocêncio, de Antônio Fagundes. Fez também a Cláudia, da açucarada Sonho Meu e a sensual Lucilene, de O Fim do Mundo.
As heroínas não se esgotaram diante da câmaras. Patrícia recorda que no teatro foi igual. Fiz a Solveigel, princesa do Ibsen, a princesa do Shakespeare, Marina, e a princesa de As Mil e uma Noites, a Iasmina, reforça sua galeria de mocinhas.
Há um outro estigma do qual Patrícia também quer se livrar: o da eterna nordestina. Assim amenizou a tristeza por não ter sido convidada para fazer teste para protagonizar a minissérie Dona Flor e seus Dois Maridos, papel que ficou para Letícia Sabatella. Sempre que eu puder fugir dos personagens nordestinos, será bom para mim, conforma-se.
Melodia vocal Cantar está entre os dons desta pequenina pernambucana de 1,58 m de altura que sempre quis ser atriz. Chegou a gravar um disco com o Quinteto Violado, que não teve repercussão porque Patrícia acabou ficando enrolada com seus compromissos globais.
Mas o aprendizado está lhe sendo bastante útil. Não raro usa seu potencial vocal com as personagens. Com a Lucilene, de O Fim do Mundo, pôde soltar a voz depois de um minucioso estudo sobre que tom cairia melhor para a personagem. Pensou em usar uns graves, mas depois chegou à conclusão que soaria deprimente junto com a peruca e as lentes de contato azuis. Fui encontrando um tom mais doce, recorda.
Já com Tereza Batista, a quem chega a comparar com um jeitinho meio Carmem Miranda, Patrícia afina a voz para imitar a voz miudinha que usava. Soltava uns agudinhos, explica, animada em falar sobre o assunto.
Patrícia gostaria de, um dia, poder brincar com a voz num só personagem. Tenho uma extensão vocal boa, diz. Se, no começo cantar era uma coincidência em relação às suas personagens, Patrícia diz que hoje já é lembrada para os papéis como uma atriz que canta. Uma cantriz, como dizem, brinca. E acrescenta, para os que não sabem, que ela também dança.
Cinema em vista Para viver a Tieta jovem no filme de Cacá Diegues, Patrícia França deixou a timidez de lado. Ao saber que estavam procurando uma atriz para o papel, Patrícia não teve acanhamento em se oferecer para a produção. A cada argumento contrário à sua determinação, ela achava uma resposta. Disseram que a personagem tinha apenas 17 anos, mas expliquei que eu fotografava jovem no vídeo, lembra.
A insistência valeu e Patrícia acabou ganhando não só o papel, como a simpatia do diretor Cacá Diegues, que logo a convidou para integrar o elenco de seu próximo filme, Orfeu do Carnaval, ainda sem data para filmar. Adorei trabalhar com o Cacá e já aceitei o convite, adianta Patrícia. No currículo cinematográfico, a atriz inclui As Tranças de Maria, de Pedro Rovai, e No Calor da Pele, de Pedro Jorge de Castro. Só estou esperando terminar a novela para entrar de cabeça no filme, espera.


