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Luiza Dantas/Carta Z NotíciasPatrícia França: ‘‘O corte do meus cabelos virou um acontecimento’’

Patrícia França cansou de posar de boa moça. Quando aceitou o convite do diretor Wolf Maya para interpretar a Madalena, de ‘‘Salsa e Merengue’’, foi seduzida pela transformação que a heroína iria sofrer num determinado momento da história. Aos 25 anos de idade, conta nos dedos os dias que faltam para se livrar do estigma da boazinha monocórdia - perfil ao qual sua imagem, vira e mexe, é associada. ‘‘Heroína é sinônimo de sangue, suor e lágrimas. Não há como fugir disso’’, lamenta.
Na trama, a mudança acontece gradativamente, a partir do momento em que Madalena ganha fama como tapeceira e torna-se uma empresária da arte. Com a guinada profissional da personagem, o visual de Patrícia França, por sua vez, será incrementado. A começar pelas gigantescas madeixas, que sofrerão a ação da tesoura, ficando na altura dos ombros e ganhando cachos alongados. Pelo menos esta foi a última decisão da direção, até agora.
Patrícia se diverte. ‘‘O corte do meus cabelos virou um acontecimento’’, surpreende-se. Ela diz que não tem nenhum problema em cortá-los, desde que tenha uma boa razão, como é o caso. Por trás da trama de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, Patrícia França, a atriz, está adorando a mudança.
Os longos cabelos lhe conferem um estereótipo perfeito para interpretar heroínas tão boazinhas quanto sofredoras. ‘‘Fico com cara de mãe d’água. Deve ser isso’’, debocha. Não é à toa que Patrícia fala reiteradamente, e de forma sempre entusiasmada, da Lucilene, de ‘‘O Fim do Mundo’’, sua última personagem na tevê.
Lucilene era uma sensual cantora de boate que envolvia-se no assassinato do filho do prefeito juntamente com o namorado, vivido por Marcos Winter. ‘‘Ela era cheia de charme, molecona mesmo. Isso é pouco explorado em mim e é o que mais tenho para explorar’’, reclama.
Nesta hora, Patrícia França começa a se expor e a postura extremamente séria e distante desfaz-se lentamente. Pernambucana de Recife, ela preocupa-se com a imagem. Ou melhor, faz questão de se explicar. ‘‘Dizem que depois que fiquei famosa fiquei metida. Mas sempre fui caseira, quieta, isso só ficou mais em evidência’’, esclarece.
O começo Ela tinha 19 anos quando deixou o Recife para trás para ficar famosa em todo Brasil. A Globo estava fazendo testes em vários Estados para encontrar a intérprete perfeita para a Tereza Batista, de Jorge Amado. Foi quando um ator recifense, que estava no Rio, comentou sobre Patrícia com produtores da Globo, que se apressaram em procurá-la. Ela não lembra o nome do conterrâneo, nem faz questão de lembrar, frisando que passou por teste.
Quando fez o teste, estava certa de que não passaria, mas ainda assim estava feliz por achar que um dia seria chamada para uma ponta qualquer. Não demorou e Patrícia soube que seria a própria Tereza Batista.
Hoje, recordando o episódio, especula o que teria acontecido caso não a tivessem descoberto. ‘‘Acho que iriam fazer testes na minha cidade de qualquer jeito, mas teria ficado com preguiça de ir’’, brinca.
Depois do sucesso-relâmpago com ‘‘Tereza Batista’’, Patrícia fez uma participação em ‘‘Renascer’’, como a Maria Santa, aquela que morreu de parto e vivia aparecendo nas visões do José Inocêncio, de Antônio Fagundes. Fez também a Cláudia, da açucarada ‘‘Sonho Meu’’ e a sensual Lucilene, de ‘‘O Fim do Mundo.’’
As heroínas não se esgotaram diante da câmaras. Patrícia recorda que no teatro foi igual. ‘‘Fiz a Solveigel, princesa do Ibsen, a princesa do Shakespeare, Marina, e a princesa de ‘As Mil e uma Noites’, a Iasmina’’, reforça sua galeria de mocinhas.
Há um outro estigma do qual Patrícia também quer se livrar: o da eterna nordestina. Assim amenizou a tristeza por não ter sido convidada para fazer teste para protagonizar a minissérie ‘‘Dona Flor e seus Dois Maridos’’, papel que ficou para Letícia Sabatella. ‘‘Sempre que eu puder fugir dos personagens nordestinos, será bom para mim’’, conforma-se.
Melodia vocal Cantar está entre os dons desta pequenina pernambucana de 1,58 m de altura que sempre quis ser atriz. Chegou a gravar um disco com o Quinteto Violado, que não teve repercussão porque Patrícia acabou ficando enrolada com seus compromissos globais.
Mas o aprendizado está lhe sendo bastante útil. Não raro usa seu potencial vocal com as personagens. Com a Lucilene, de ‘‘O Fim do Mundo’’, pôde soltar a voz depois de um minucioso estudo sobre que tom cairia melhor para a personagem. Pensou em usar uns graves, mas depois chegou à conclusão que soaria deprimente junto com a peruca e as lentes de contato azuis. ‘‘Fui encontrando um tom mais doce’’, recorda.
Já com Tereza Batista, a quem chega a comparar com um jeitinho meio Carmem Miranda, Patrícia afina a voz para imitar a voz miudinha que usava. ‘‘Soltava uns agudinhos’’, explica, animada em falar sobre o assunto.
Patrícia gostaria de, um dia, poder brincar com a voz num só personagem. ‘‘Tenho uma extensão vocal boa’’, diz. Se, no começo cantar era uma coincidência em relação às suas personagens, Patrícia diz que hoje já é lembrada para os papéis como uma atriz que canta. ‘‘Uma cantriz, como dizem’’, brinca. E acrescenta, para os que não sabem, que ela também dança.
Cinema em vista Para viver a Tieta jovem no filme de Cacá Diegues, Patrícia França deixou a timidez de lado. Ao saber que estavam procurando uma atriz para o papel, Patrícia não teve acanhamento em se oferecer para a produção. A cada argumento contrário à sua determinação, ela achava uma resposta. ‘‘Disseram que a personagem tinha apenas 17 anos, mas expliquei que eu fotografava jovem no vídeo’’, lembra.
A insistência valeu e Patrícia acabou ganhando não só o papel, como a simpatia do diretor Cacá Diegues, que logo a convidou para integrar o elenco de seu próximo filme, ‘‘Orfeu do Carnaval’’, ainda sem data para filmar. ‘‘Adorei trabalhar com o Cacá e já aceitei o convite’’, adianta Patrícia. No currículo cinematográfico, a atriz inclui ‘‘As Tranças de Maria’’, de Pedro Rovai, e ‘‘No Calor da Pele’’, de Pedro Jorge de Castro. ‘‘Só estou esperando terminar a novela para entrar de cabeça no filme’’, espera.

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