A volta do rouxinol mítico
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de dezembro de 1996
Antônio Gonçalves Filho 
O dia 13 de fevereiro de 1997 vai marcar os 60 anos da estréia da soprano brasileira Bidu Sayão no grande templo da ópera de Nova York, o Metropolitan. Antecipando as comemorações, a Sony está lançando o CD Bidu Sayão - Opera Arias and Brazilian Folksongs, uma edição luxuosa da série Masterworks Heritage. Entre outras gravações históricas estão quatro árias de Manon, ópera de Massenet com a qual Bidu estreou no Metropolitan, em 1937. Há também o antológico registro da cantilena das Bachianas Brasileiras nº 5, feito em 1945 com Villa-Lobos regendo um conjunto de câmara de oito violoncelos. Detalhe: um deles era Leonard Rose (1918-1984), então primeiro violoncelo da Filarmônica de Nova York.
Bidu, hoje com 90 anos, foi homenageada pela Escola de Samba Beija-Flor no carnaval do ano passado. Justa homenagem, mas poucos lembraram que Bidu estava sendo recebida não só pelos serviços prestados à música erudita. Prova disso são as canções populares de Ernani Braga (1898-1948) incluídas na antologia que a Sony acaba de lançar. Entre os nove títulos de Braga estão A Casinha Pequenina e Meu Boi Barroso. Bidu é acompanhada pelo piano de Milne Charnley, numa gravação de 1947.
O repertório do CD não é, portanto, ortodoxo. Vai de Villa-Lobos a Ravel, passando por Gounod, Reynaldo Hahn, Henri Duparc, Debussy, Charles Koechlin e Ernest Moret. O disco traz o registro de Je Veux Vivre, de Romeu e Julieta, feito em 1941 com o maestro austríaco Erich Leinsdorf. Wagneriano acostumado a grandes vozes como as de Flagstad ou Pinza, Leinsdorf descobriu em Sayão uma intérprete capaz de variações cromáticas tão intensas que compensavam a aparente fragilidade de sua voz.
De certo modo, Bidu Sayão se aproximava da soprano italiana Amelita Galli-Curci (1882-1963). Ambas começaram pelo piano, ambas foram adotadas por grandes compositores (Bidu por Villa-Lobos e Galli-Curci por Mascagni) e as duas dividiam o mesmo fio de voz aveludada à beira de um trágico colapso.
Aula de controle Também como Galli-Curci, Bidu Sayão poderia ser chamada de imperatriz da coloratura, mas ambas sempre desejaram algo além de suas fronteiras vocais. Bidu lutou para ser a dramática Margherita no Mefistofele, de Boito, em 1952, e a Zerlina de Don Giovanni, em 1954. Não são memoráveis e os produtores do disco preferiram as gravações entre 1941 e 1950, seus melhores anos. Decisão acertada. É particularmente tocante sua interpretação em duas peças de Debussy, de LEnfant Prodigue, ambas registradas em 1947.
O francês de Bidu é perfeito e sua espontaneidade é transparente, o que fez dela a intérprete ideal de Hahn e Debussy. Lástima que muitos de nós vamos morrer sem ter visto Bidu Sayão no palco, mas as gravações deste CD garantem um registro fiel dessa cantora sensível, capaz de refletir o desespero de Duparc a um passo de perder a vista e renunciar a tudo o que havia composto. Há quase 20 anos, dois dos maiores selos americanos, a CBS e a RCA, uniram esforços para lançar um disco com canções francesas e árias por Bidu Sayão, das quais foram retiradas as peças de Hahn e Duparc. Ouvindo o CD em homenagem à cantora, é lícito esperar que a Sony coloque novamente no mercado esse disco, agora com alta definição sonora. Os fãs merecem. E, se não for pedir muito, por que não o antigo disco do selo Columbia que traz árias de óperas mozartianas como Don Giovanni e As Bodas de Fígaro? Mais do que uma homenagem, seria uma aula de controle vocal muito apropriada para cantoras da nova geração que desconhecem o legato e o pianíssimo de Bidu Sayão, esse rouxinol mítico que volta à terra natal num CD magnífico.


