A volta do Policarpo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Antonio Cescatto 
Nosso ilustre, excelso e sempre surpreendente governador, conseguiu superar-se. Dessa vez, o prócere das Araucárias está conseguindo viabilizar no Estado que preside com mão de ginete aquilo que nem o bigodudo Aldo ''Pecedobê'' Rebelo conseguiu levar adiante no plano nacional: proibir o uso desses estrangeirismos que assolam e contaminam a língua pura da nossa pátria mãe gentil. Determinou à sua fiel armada legislativa que aprovasse sub judice uma lei que proibisse o uso revoltante desses artifícios de dominação imperial linguística que tanto desvirtuam a relação da juventude pátria com sua língua.
Aliou-se, assim, ao Policarpo Quaresma. O quê? Você não conhece o ilustre, indefectível e transcendental Policarpo Quaresma?
Mesmo que você procure, não vai encontrar um livro em edição decente do sábio carioca Lima Barreto, mulato dos subúrbios cariocas que, em 1908, publicou essa obra-prima de ironia e reflexão brasílica que se chama o ''Triste Fim de Policarpo Quaresma''.
Inflado de espírito cívico, enlevado pela admiração das virtudes naturais da nossa terra, horrorizado com a admiração cega dos seus patrícios por tudo que fosse estrangeiro, puro de alma e de coração, Policarpo recusava mesmo o português como língua legítima dos brasileiros. Ora, dizia, português é língua de portugueses. E que língua é legitimamente, inequivocamente, brasileira? Claro, raciocinava ele: o Tupi. E dedicou-se ao estudo do Tupi. Passou a escrever tudo em Tupi.
O governador é o nosso Policarpo. Horrorizado com a proliferação dos ''shoppings'', dos ''cheese-burgers'', dos ''briefings'', dos ''the ends'' e dos ''thrillers'', seu coração puro achou que era a hora de assumir uma luta que só o tempo saberia reconhecer como justa. E seremos nós, paranaenses e contemporâneos desse títere linguístico, as testemunhas dessa verdadeira revolução que se inicia aqui, diante de nossos olhos e da nossa língua.
Avante, Policarpo. Se o herói da literatura teve um triste fim, nosso herói certamente não cederá no seu intento. Breve - pois a luta, todos sabemos, continua - viveremos em um Estado onde o Tupi triunfará, dando exemplo ao Brasil e ao mundo.
ANTONIO CESCATTO é publicitário em Curitiba


