A volta do Hole
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de setembro de 1998
Guto Barra Planet Pop/AE 
Acaba de chegar ao mercado internacional um dos discos mais antecipados dos últimos anos. Courtney Love e seu grupo Hole estão de volta com Celebrity Skin, o primeiro lançamento deles desde Live Through This, que chegou ao mercado poucos dias depois da morte de Kurt Cobain, em abril de 1994. Desta vez, além de provar que podia fazer música sem a ajuda do líder do Nirvana, ela também vem com a missão de mostrar que sua ligação com Hollywood e o universo fashion não afetaram sua capacidade de criar bom rock. O veredito é: sim, ela consegue.
Love parece disposta a dizer ao mundo que muita coisa mudou, mas no fundo ela ainda tem muito em comum com a mulher que já foi referida como a Yoko Ono do grunge. Nos últimos quatro anos, ela enfrentou a morte do marido, pela qual foi frequentemente acusada de contribuir (inclusive no recente documentário Kurt & Courtney, do inglês Nick Broomfield); a morte do baixista do Hole, Kristen Pfaff; um tratamento para se livrar da dependência da heroína; e muitas críticas por ter virado garota-propaganda e amiga da família Versace. Sem falar na crise dentro da gravadora Geffen, o que aumentou a pressão sobre o grupo.
Celebrity Skin foi concebido durante os últimos 18 meses deste período, durante diversos momentos importantes da vida da cantora. Muito antes do disco chegar às lojas, já se especulava se os remanescentes do grunge iriam acompanhar a nova fase de Love, que estaria substituindo a inspiração de Cobain pela de Billy Corgan, o líder do Smashing Pumpkins, co-autor de cinco faixas do álbum. Ela conseguiu atrair uma boa dose de atenção para o lançamento por conta de uma troca de farpas com Corgan na imprensa e de suas listas de exigências para entrevistas - algumas chegam a ter 17 páginas.
Agora a coisa é entre Celebrity Skin, o disco, e o público. Sabiamente a distância da sonoridade do grunge, o grupo - formado por Love, Eric Erlandson, Melissa Auf Der Maur e Patty Schemel - volta mais limpo, com uma produção mais pop assinada por Michael Beinhorn, que já trabalhou com o Soundgarden e Marilyn Manson. O Hole de 1998 soa mais como o Garbage do que com o Nirvana, só que sem os elementos eletrônicos e com vocais mais fracos - mas já bem melhores do que os de Live Through This.
Ficaram de fora boa parte da fúria e da sujeira de antes, mas, para compensar, agora há músicas mais elaboradas e frescas. Love já avisou que não quer elaborar sobre o conteúdo das letras do disco, mas que algumas são baseadas em experiências autobiográficas e sua relação com a fama, a beleza e sua vida pós-heroína. Não é difícil descobrir as associações de cada faixa com a vida dela. Inspirada por Cobain, por exemplo, há Use Once & Destroy, em que ela diz: Eu fui até o fundo para resgatar você/fui até o fundo para catar os restos/Procurei entre suas manchas e indefinições.
O que se percebe com o disco é que toda a mudança estética e de comportamento de Love se deve mais ao fato de ela ter deixado de ser uma junkie do que ao deslumbramento pela fama. Ninguém nunca vai saber como foi tudo o que eu passei, diz a cantora na edição de setembro da revista norte-americana Spin. Alguém deveria ter me trancado em um quarto por um ano para eu não me expor daquela maneira. Por conta disso, em Celebrity Skin ela parece estar querendo mostrar apenas certos aspectos de sua personalidade, em letras indiretas, que podem resultar em diferentes interpretações.
O álbum mostra um trabalho conciso - com boas guitarras de Erlandson e Corgan - de uma banda que teve uma trajetória única nos últimos tempos. O último capítulo da novela foi a saída da baixista Patty Schemel do grupo, poucas semanas antes do lançamento do disco - e depois da conclusão da capa e do encarte. O motivo teria sido o envolvimento dela com drogas e diferenças criativas com Beinhorn. Assim, Celebrity Skin não é mesmo uma obra-prima, embora tenha bons momentos, com as faixas Dying e Malibu, coincidentemente marcadas pela participação de Corgan.
Mesmo sem surpreender, o Hole já deu um grande passo ao conseguir fazer um trabalho criativo e com qualidade sob circunstâncias tão adversas. O grupo conseguiu conquistar a crítica norte-americana e agora vai tentar convencer o público com a bênção da MTV e muita publicidade por conta do status de celebridade de Love. Se ela achou que o caminho já tinha sido duro até agora, talvez não tenha percebido que o mais difícil ainda está por vir.


