A volta dionisíaca do Proteu
'Tango' traz a metáfora de um tempo em que a tradição e a vanguarda morreram e se esqueceram de deitar
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de maio de 2019
'Tango' traz a metáfora de um tempo em que a tradição e a vanguarda morreram e se esqueceram de deitar
Celia Musilli - Grupo Folha 
A volta do grupo Proteu ao palco, depois de 20 anos, com o espetáculo 'Tango', reacendeu em Londrina uma força cultural como se Dionísio acordasse, através da irreverência profunda.
O elenco do espetáculo que homenageia os 40 anos de um grupo teatral que faz parte da história da cidade, reuniu atores experientes - que faziam parte do núcleo original do Proteu - com dois jovens talentos da Escola Municipal de Teatro, mostrando que na cidade Dionísio não morreu, apenas esperava um cutucão histórico que acendesse a chama de uma de suas maiores referências: o teatro.
O cortejo, no último fim de semana, contou com um público que lotou as três sessões no Teatro Ouro Verde, no qual não sobrou um lugar na plateia, estava tudo tomado.
A montagem tem a direção de William Pereira, que também participou do espetáculo “Um Trágico Acidente” (1981-1982) com o grupo Proteu, e voltou à cidade depois de várias experiências teatrais bem sucedidas, incluindo incursões pela ópera. Deve-se a isso, talvez, a força da cenografia de “Tango”, cuja criatividade o diretor dividiu com Gelson Amaral, outro nome reconhecido pelo trabalho cenográfico, para o teatro e a dança, em nível nacional. O que se viu foi um cenário coberto por milhares de páginas de jornais, cedidos pela FOLHA, o que deu dimensão quase operística a um ambiente de puro papel.
O espetáculo tem no texto do polonês Slawomir Mrozek (1930-2013) o ponto de partida para a rebelião do antigo e do novo, do passado e do presente, da tragédia e da comédia, do histórico e do contemporâneo. Um texto naturalmente ácido, que contrapõe valores de gerações diferentes a partir de uma família - que retrata a sociedade – e traz a vitalidade dos paradoxos que permeiam o embate de ideias de um jovem conservador – Arthur, interpretado por Luan Valero - com os pais Stomil e Eleonora - interpretados por Poka Marques e Maria Fernanda Coelho.

O que se vê palco é uma situação divertida de choque de valores com sinais invertidos, um choque que remete ao Brasil contemporâneo com um jovem Arthur aproximando-se do esterótipo de um integrante imaturo do MBL, como um Kim Kataguiri antes do arrependimento.
Esse jovem representante do conservadorismo – que na história do mundo sempre aguarda um empurrão para sair do armário - tem no pai o alvo principal de suas críticas, numa relação que também remete a Édipo, nas cobranças que faz sobre o comportamento sexual da mãe. Os pais de Arthur são também o estereótipo da 'velha vanguarda', um pai artista, militante do experimentalismo, uma mãe também artista e sem nenhum traço da moralidade burguesa.
O grande atrativo do texto de Mrozek, que impulsiona situações e interpretações hilárias, é a capacidade de dar porradas em modernos e conservadores, socos cruzados à esquerda e à direita, num ringue cênico onde não se poupam ideologias que cheiram à vanguarda ou à naftalina.

Entre tantos pontos a se ressaltar, também há ressalvas: a mais evidente é a projeção das vozes dos atores nem sempre audíveis em suas falas. Há recursos técnicos capazes de evitar esse tropeço, não custa tentar, porque nem todo o elenco tem a mesma técnica nem a mesma potência de voz. Para o público que se sentou da metade do teatro para trás este foi um ponto que atrapalhou a fruição de um espetáculo cujo texto é um dos pontos altos, como bem lembrou o diretor William Pereira em suas entrevistas antes da estreia.
'Tango' agradou uma plateia ávida em mobilizar também sua potência política através do teatro, marca registrada do Proteu nos seus 40 anos de trajetória tão bem dirigida sob o impulso criativo da inesquecível Nitis Jacon.
Repaginando a tradição das artes cênicas na cidade, o diretor e o elenco souberam criticar o momento político do Brasil através de um texto antológico ao qual acrescentaram 'cacos' que remetem à 'nova política', como “talquei” ou “Deus acima de todos”. Isso também é papel da arte, a crítica ferina sem violência, a comédia revelando a tragédia, a rebelião pelo humor, o protesto pela inteligência.
Vale dizer que o caixão de defuntos que integra o cenário, além de câmara mortuária, é câmara de punição e tortura. Mais que isso, pode também ser interpretado como a metáfora de um tempo em que a tradição e a vanguarda morreram e se esqueceram de deitar. A crítica é clara, no âmbito cultural e político, cabe ao público também decidir o que ocupará esse lugar. E que venham mais Proteus e novas temporadas.


