A volta de um bamba
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de julho de 1997
Everton de Souza Cult Press 
No rastro da divulgação proporcionada pela Nasa, Jorge Aragão está lançando um novo CD, Sambista a bordo. Depois que o seu samba Coisinha do Pai foi usado pela agência espacial norte americana para acordar o robô Soujourner, durante a missão em Marte, Jorge espera que seu novo trabalho possa fazer no Brasil o mesmo sucesso que Coisinha do Pai fez no planeta vermelho. Fiz esse samba em homenagem a minha filha, para fazê-la dormir, explica. Ironicamente, a canção de ninar acabou servindo para despertar o robô. Foi a mesma emoção de quando ouvi minha música tocar pela primeira vez no rádio, descreve o sambista.
Impulsionado por essa surpresa espacial, Jorge Aragão deixa o exílio dos estúdios após a saída da RGE, sua antiga gravadora. O título do CD, Sambista a bordo, intencionalmente ou não, é uma grande jogada de marketing. Dentro do CD há um sambista de verdade, explica Aragão.
Jorge Aragão nasceu no Rio de Janeiro, numa terça-feira de Carnaval de 1949, no mesmo dia do aniversário da cidade maravilhosa. Passou a infância no bairro de Madureira, Zona Norte da cidade. Um tradicional celeiro de bambas, sede de duas grandes escolas de samba da cidade: Portela e Império Serrano. Minha raiz tem tudo a ver com o samba, orgulha-se.
Sua carreira começou no bloco Cacique de Ramos, quando criou o grupo de pagode Fundo de Quintal, junto com os sambistas Almir Guineto e Neoci. Deixou o grupo em 1982, partindo para a carreira solo. Compôs músicas como Coisa de Pele, considerada o hino do pagode, e Malandro, conhecida na voz de Elza Soares.
A grande influência na carreira de Jorge Aragão, segundo ele mesmo, foi outro sambista: Roberto Ribeiro, autor do samba Todo Menino é um Rei. Ele não tem substitutos dentro do samba, exalta. O sambista influenciou Aragão no modo simples de cantar e na dicção clara.
Durante os três anos que ficou sem gravar, Jorge Aragão aproveitou para compor e realizar shows por todo o Brasil. Entretanto, o sucesso da longa turnê o convenceu a gravar um novo disco. Sócio de uma produtora de música, Aragão começou o projeto com investimento próprio. Quando já tinha 90% do trabalho pronto, surgiu o contrato com a nova gravadora, a Indie Records, uma estreante no mercado fonográfico.
TradicionalJorge Aragão continua sendo um sambista tradicional, de voz melódica, romântico, tímido e atitudes pacíficas. Características de um compositor desgostoso com as mudanças impostas ao samba, o ritmo eletrônico e as apresentações superproduzidas. Estão distorcendo o samba, reclama. Mas ele não acredita que esse processo acabará com a autenticidade do gênero. Sempre haverá alguém fazendo o samba tradicional, consola-se.
Com Sambista a bordo, Jorge Aragão espera renovar as alegrias que sua carreira já lhe deu. O CD vai ser lançado em todo o Brasil, juntamente com uma série de shows. Estou bastante animado, confessa. O entusiasmo com o novo trabalho é um indício de que - com o empurrãozinho da Nasa - o sambista pode voltar a frequentar as paradas de sucesso.


